As Cores do Tempo

(2025) ‧ 2h04

Entre memórias, arte e destino

Felipe Fornari

Cédric Klapisch constrói em As Cores do Tempo uma história que transita entre o drama familiar, o romance e a celebração da arte francesa. A ideia de conectar diferentes gerações por meio de uma herança esquecida oferece um ponto de partida envolvente, especialmente ao colocar lado a lado uma Paris em plena efervescência cultural no fim do século XIX e um grupo de descendentes tentando compreender suas próprias origens. O resultado é um filme delicado e cativante, embora nem sempre consiga transformar seu enorme potencial em uma experiência igualmente profunda.

A narrativa alterna constantemente entre o passado e o presente, acompanhando a jornada de Adèle rumo à capital francesa enquanto seus descendentes investigam os segredos escondidos em uma antiga casa na Normandia. Essa estrutura funciona bem na maior parte do tempo, permitindo que as descobertas de uma época dialoguem com as da outra. Aos poucos, o quebra-cabeça familiar ganha forma e desperta curiosidade suficiente para manter o interesse até os momentos finais.

É justamente a trama ambientada em 1895 que concentra os melhores momentos do longa. Suzanne Lindon interpreta Adèle com uma mistura convincente de ingenuidade e determinação, conduzindo o espectador por uma Paris marcada pelo surgimento da fotografia, pelo Impressionismo e pelas transformações sociais daquele período. Klapisch recria esse cenário com evidente carinho, fazendo da cidade não apenas um pano de fundo, mas um personagem fundamental da narrativa.

Já os acontecimentos situados em 2024 possuem um charme mais irregular. Os quatro primos oferecem perspectivas distintas sobre a herança recebida, mas nem todos recebem desenvolvimento suficiente para despertar o mesmo envolvimento emocional da história de sua ancestral. Em diversos momentos, o presente parece existir mais como uma ferramenta para revelar o passado do que como uma narrativa igualmente interessante por mérito próprio.

Visualmente, As Cores do Tempo é um filme bastante elegante. A fotografia valoriza tanto a beleza bucólica da Normandia quanto a atmosfera artística da Paris da Belle Époque, enquanto a direção encontra maneiras criativas de aproximar as duas cronologias. Há um cuidado evidente em fazer com que cada transição pareça natural, reforçando a ideia de que o tempo separa gerações, mas não apaga completamente os laços que as unem.

Ao mesmo tempo, Klapisch opta por um olhar bastante idealizado sobre o universo artístico que retrata. Embora nomes importantes da cultura francesa apareçam integrados à narrativa, o filme prefere o encantamento à complexidade, construindo uma visão bastante romantizada daquele período histórico. Essa escolha combina com o tom leve da obra, mas também impede que algumas de suas reflexões alcancem maior profundidade.

No fim, As Cores do Tempo funciona melhor como uma celebração das memórias familiares e da força que o passado exerce sobre o presente do que como um grande épico histórico. É um filme sensível, visualmente encantador e repleto de boas ideias, ainda que algumas delas permaneçam apenas parcialmente exploradas. Mesmo sem atingir toda a força dramática que sua premissa sugere, entrega uma experiência agradável, guiada pelo afeto, pela curiosidade e pelo fascínio que a arte continua exercendo através das gerações.

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