Bia Mais Um

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“Bia Mais Um” traz dilemas da passagem para a vida adulta ao som de dreampop

Lembro da primeira vez que assisti Bia Mais Um, em algum momento dos dois primeiros anos da pandemia, e ter me sentido em um videoclipe de alguma das bandas que a protagonista escuta nos seus fones e depois faz Jean (Gustavo Piaskoski) se contaminar, mesmo ele parecendo tão diferente dela. Gosto da ideia dessa contaminação porque naquele momento que o filme chegou, via festival de cinema em formato on-line, compartilhar um fone de ouvido soava mais íntimo do que parece corriqueiramente em filmes indies. Vivíamos um isolamento que, filosoficamente, se parecia com o da protagonista interpretada por Gabrielle Pizzato, portanto era um luxo que duas pessoas se encontrassem por acaso em uma lanchonete, depois em uma pracinha, e pudessem construir uma relação de descobertas, conversas, respeito ao silêncio alheio e também compartilhamento de esquisitices sonoras.

Continuo achando Bia Mais Um, a estreia de Wellington Sari em longas, um filme bastante honesto no estilo boy meets girl, que sempre adorei desde a adolescência, especialmente quando são casais incomuns. O que me incomoda são elementos que com o tempo passaram a me irritar em muitos roteiros que tratam de relacionamentos, que sempre são complexos. No longa, Bia é uma jovem entre a adolescência e a vida adulta, que está passando por aquele momento que parece não se encaixar em nenhum lugar: a escola acabou, a universidade tá logo ali, mudança de cidade, intervalo entre os pais virem para essa nova cidade e, um fantasma na vida de uma jovem nessa fase: uma gravidez na adolescência. Porém, Bia parece estar tranquila, o seu dilema passa longe de ser fazer ou não um aborto. Ela nos chega muito sensata e certa de si. E aí aparece um dos elementos que me incomodam: as poucas amigas são infantis perto dela (que gosta de arte e lê escritoras nobéis), e nas duas cenas que aparecem, apontam a cafonice da “vida adulta”. Nessa fase complexa entre saber de uma gravidez inesperada e se sentir ausente da sociabilidade corriqueira, Bia conhece Jonas totalmente por acaso.

E aí a gente já sabe, Bia Mais Um ganha contornos deliciosos à la Eric Rohmer com estética de clipe dreamgaze de alta qualidade. Acompanhamos o recheio do relacionamento se desenvolver, aquela coisa gostosa que todo mundo já adorou sentir em vários momentos da vida. Claro que vai ter o momento que Bia tem que contar que esse relacionamento só pode acontecer em trio. Ela conta, e temos uma breve tensão para acompanhar um pouco do Jonas, que também nem se preocupa com a situação em si, mas com o sumiço da garota pela qual está apaixonado.

As cores oníricas de dreampop dão o tom para essa história que parece suspender o tempo, como costuma acontecer. De vez em quando vemos Bia se relacionando timidamente com a cidade e Jonas com a esquisitice do mundo e do pai. Estranhamente, só vemos ele tridimensional quando para de conversar com Bia por um tempo. A minha maior reclamação é sobre o casal no centro do filme ser apartado do resto do mundo. Se fosse só mesmo Bia + um bebê, a solidão diante do mundo teria outra camada. Mas, na época que o filme saiu, tudo fazia muito sentido, se vivia uma relação por vez. Torço que no mundo paralelo, Bia mais dois seja repleto de gente, e a centralidade na vida da protagonista não seja nem só a filha nem só o namorado. E sim, ela diante do mundo. De qualquer maneira, o filme segue sendo um afago, onde gente esquisita sempre se encontra.

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