Entre o fascínio e a violência, Bugsy revisita uma das figuras mais enigmáticas do crime americano. Dirigido por Barry Levinson, o filme transforma a biografia do mafioso Benjamin “Bugsy” Siegel em um espetáculo de charme, poder e contradições. Mais do que um típico filme de gângster, trata-se de uma história sobre ambição e ilusão — um retrato do homem que enxergou um oásis de luxo em meio ao deserto e ajudou a fundar o mito de Las Vegas.
Warren Beatty interpreta Bugsy como um sonhador irresistível, cuja brutalidade convive com uma surpreendente dose de idealismo. Ao trocar Nova York por Hollywood, o mafioso mergulha em um universo que mistura poder e fantasia, encontrando em Virginia Hill (Annette Bening) a faísca que acende tanto sua paixão quanto sua ruína. O romance entre os dois, intenso e autodestrutivo, funciona como espelho de uma era em que o glamour servia de verniz para a corrupção e a violência.

Barry Levinson, que já havia explorado o sonho americano em Rain Man, aqui investiga o seu lado mais obscuro. O diretor trata Siegel não como um vilão, mas como um visionário inconsequente — um homem que acredita poder moldar o mundo à sua imagem, sem perceber o quanto está sendo engolido pela própria vaidade. Essa abordagem transforma Bugsy em um estudo sobre o mito do self-made man, onde o sucesso nasce de uma mistura perigosa de coragem, delírio e ego.
A reconstituição de época é deslumbrante: os figurinos, a fotografia e a trilha sonora conduzem o espectador a uma Hollywood de sonhos e excessos. Ainda assim, Levinson evita a armadilha da nostalgia. O que vemos é um ambiente sedutor, mas também profundamente falso — um cenário em que o cinema e o crime compartilham o mesmo apetite por espetáculo. Nesse sentido, Bugsy se aproxima de obras como Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas, também estrelada por Beatty, em sua tentativa de romantizar a marginalidade e revelar o preço dessa romantização.
Annette Bening, magnética, oferece a Virginia Hill uma mistura de dureza e vulnerabilidade que faz dela mais do que a musa de um criminoso — ela é o espelho da própria Hollywood: bela, volátil e disposta a consumir quem se apaixona demais. A química entre Bening e Beatty é explosiva e sustenta a tensão emocional do filme.

Levinson acerta ao retratar Bugsy como um homem dividido: parte assassino, parte artista frustrado, parte empresário megalomaníaco. Seu sonho de erguer o Flamingo Hotel no deserto não é apenas um empreendimento, mas uma metáfora para o próprio cinema — um ato de fé no impossível. O que o destrói não é a falta de visão, mas o excesso dela.
No fim, Bugsy revela-se menos um filme sobre máfia e mais um lamento sobre a natureza do sonho americano. Siegel morre, mas seu legado prospera em neon e roleta — uma cidade erguida sobre desejo e pecado. Levinson transforma a biografia de um criminoso em parábola sobre ambição e ilusão, lembrando que, às vezes, é o delírio que move o mundo — e também o que o destrói.




