O documentário Cheiro de Diesel, dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins, é um exercício de memória e justiça sobre uma das feridas abertas da história brasileira: o papel das Forças Armadas na violação de direitos humanos, na reprodução da barbárie, do passado ditatorial ao presente democrático.

O contexto é simbólico: esse ano marca os 62 anos do Golpe militar de 1964. O documentário evidencia a permanência de estruturas autoritárias que nunca foram enfrentadas pelo Estado brasileiro. Diferente de países como Uruguai, Chile e Argentina que mostraram algum avanço em relação à elaboração desse passado de violações militares, o Brasil ainda convive com a ausência desse acerto de contas, e pior, mantendo privilégios.
Dessa forma, o documentário consegue articular passado e presente. O foco recai sobre as ocupações militares em favelas do Rio de Janeiro, ocorridas no Complexo da Maré, na Penha e no Morro do Salgueiro, autorizadas sob decretos de Garantia da Lei e da Ordem (GLOs). Tais operações, ocorridas entre 2014 e 2015 e retomadas entre 2017 e 2018, são apresentadas sob o discurso oficial de “pacificação”, mas o documentário escancara o cotidiano de controle armado do território, da presença de tanques e fuzis, e de uma rotina de medo imposta aos moradores.

O documentário tem o mérito de ouvir os moradores dessas comunidades, o que materializa as violações: revistas abusivas, ameaças constantes, invasões domiciliares, torturas e assassinatos. A menção à chamada “sala vermelha”, espaço de tortura dentro de um quartel do Exército, explicita que essas violências persistem à luz do dia, em pleno regime democrático. A impunidade estrutural também é escancarada: os próprios militares seguem sendo responsáveis por julgar seus crimes, o que expõe a fragilidade das instituições democráticas brasileiras no enfrentamento das violações. A presença de Gizele Martins na direção e condução do documentário que, além moradora da Maré e jornalista comunitária, é mais um elemento político potente, pois reivindica o direito à memória a partir de quem viveu, e continua vivendo, os efeitos da militarização.
É um registro histórico e instrumento de denúncia. Evidencia o paralelo das continuidades entre ditadura e democracia no Brasil, e como militarização dos territórios periféricos é parte constitutiva de um projeto de poder. Nos faz pensar sobre a atualidade do tema, que se conecta a eventos recentes, como a tentativa de ruptura institucional com os ataques de 8 de janeiro de 2023, que mostra como a democracia brasileira permanece sob constante ameaça. Sem memória, justiça e reparação histórica, as condições que possibilitam a repetição da violência e da barbárie permanecem. Ou seja, mostra a urgência em elaborar o passado, como elemento necessário para reivindicar um futuro em que a democracia seja efetivamente realizada.







