Creepy

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17.11.2016

Em "Creepy" o terror é algo que se desenvolve com uma história típica de thriller e repleta de interpretações psicológicas e simbólicas

No ocidente, o cinema de gênero se definiu com premissas comerciais e pautadas nas produções norte-americanas. Filmes de horror, por exemplo, sempre envolveram muitos jump scares, acontecimentos inesperados e cenas que esgotam os sentimentos do espectador que fica, quase que literalmente, com o coração na mão. Já nas produções coreanas, chinesas e japonesas, principalmente, o gênero consegue causar uma imersão interessante no espectador, unindo a aproximação do real – do plausível na vida de qualquer pessoa – com elementos metafísicos, psicológicos e, muitas vezes, sem explicação. Em Creepy, do cineasta japonês Kiyoshi Kurosawa, o terror é algo que se desenvolve com uma história típica de thriller e repleta de interpretações psicológicas e simbólicas.

Baseado no romance homônimo de Yutaka Maekawa, roteirizado por Chihiro Ikeda, Creepy flerta com as primeiras produções do diretor. Takakura (Hidetoshi Nishijima) é um experiente detetive que vê sua vida profissional ruir depois de uma emblemática conversa com um assassino que ele acreditava compreender psicologicamente. Afastado do cargo, Takakura leciona aulas em uma universidade e tenta levar uma vida longe das investigações, mas parece que os casos sem resolução sempre estão à espreita. Ao se mudar para o subúrbio com a esposa Yasuko (Yuko Takeuchi), em busca de um ambiente mais calmo a fim de realinhar o casamento, encontram vizinhos nada, ou estranhamente, sociáveis. E é conhecendo Nishino (Teruyuki Kagawa, com uma interpretação perturbadora) que Takakura vai encarar sua vida conjugal e profissional em situações que exigirão mais do que conhecimento técnico.

Apesar de partir de uma ideia batida de que o terror pode viver ao lado, o filme se desenvolve construindo enredos que vão convergir em algum ponto. Desde o sentimento de fracasso de Takakura como um detetive que se considera um especialista na psicologia de psicopatas, até a ironia do destino de colocar a estranheza de uma história, que está sendo investigada, justamente na porta ao lado de sua casa. Creepy anda muito bem até chegar no ponto mais sólido da história, criando tensões e mantendo o espectador atento e, principalmente, curioso. Mas em seguida parece que Kurosawa se perde, optando por brincar com alguns plot twists e ficar insistindo que a história, na verdade, nunca acaba.

Kiyoshi Kurosawa não tem pressa, não está preocupado se o espectador mais acostumado a um cinema cheio de gritos e sustos está ansioso, ele quer que adentremos o labirinto de sua história e nos sintamos parte dela, que questionemos e duvidemos junto com a câmera, ele quer diálogo. Os sentidos metafóricos, entre a loucura e a repressão das emoções, tão comuns na cultura japonesa, são bem explorados. Aliás, essa crítica à própria cultura é recorrente no trabalho diretor, sempre colocando em cena os medos, o limite entre o saudável e o estranho nos relacionamentos. É essa sensação de estranheza, unida ao esquisito e horripilante que dá nome ao filme Kurîpî, pronúncia fonética da palavra creepy em japonês, forma que a língua japonesa adota palavras estrangeiras.

Os pontos altos de técnica em Creepy são a direção de arte: fotografia fazendo jus ao currículo do diretor, que se mostra particularmente assustadora quando entra no universo do criminoso. Destaque ainda para a construção do subúrbio, não apenas a arquitetura – disposição das casas – tem importância no enredo, mas também o privado e como acontece a vida doméstica no interior desses lugares. Kurosawa tem um excelente cuidado com a estética do filme, deixando que ela guie o espectador pelos pormenores colocados em cena. Nada está ali por acaso, desde uma obsessão mesquinha de um assassino até a forma que as pessoas se comunicam e se colocam na cena.
Mesmo com alguns pontos mal desenvolvidos, forçando um clima de tensão e até de irritação ao espectador, Creepy é um filme interessante que nos faz pensar certas situações corriqueiras de forma particularmente perturbadoras. Afinal, o que pode ser mais assustador do que uma situação tão plausível que passamos semanas observando nossos vizinhos?

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AUTOR

Emanuela Siqueira

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