Daaaaaalí! não é exatamente uma cinebiografia e tampouco tenta ser. O que o diretor Quentin Dupieux entrega aqui é uma obra que escapa de qualquer forma tradicional de narrativa para construir um filme que é, ele mesmo, uma experiência surrealista — em espírito, em forma e em substância. A escolha de múltiplos atores para viver Salvador Dalí já avisa o espectador: esqueça lógica, coerência linear ou noções fixas de identidade. Aqui, tudo é fluido, repetitivo e deliciosamente insano.
A trama acompanha Judith, uma jornalista que tenta entrevistar o lendário artista espanhol, mas o encontro se transforma em uma odisseia interminável. Dalí, com sua vaidade e excentricidade, parece constantemente sabotar a própria entrevista — ora por capricho, ora por puro prazer de manter o controle da narrativa. Essa inversão de expectativas transforma a jornalista, que se vê como “sem graça”, na figura mais interessante em cena, enquanto o artista, com toda sua aura mitológica, se esvazia em vaidade performática.

É um filme que trata o tempo como matéria moldável, e isso se reflete na montagem, na mise-en-scène e até nos diálogos, que muitas vezes se repetem ou se contradizem. A linguagem cinematográfica aqui é manipulada como tinta em uma tela: as cenas voltam, se desfazem, mudam de forma — como se estivéssemos assistindo a um sonho se reescrevendo em tempo real. A realidade e a ficção se dissolvem em uma massa simbólica onde a entrevista nunca termina porque, no fundo, nunca começou.
Dupieux parece mais interessado em zombar da mitologia construída em torno do artista do que em celebrá-la. Daaaaaalí! retrata seu protagonista como um bufão vaidoso, quase sociopata, cercado de pompa e exigências ridículas — como a de só ser filmado por uma câmera “gigantesca”. Ainda assim, há um certo carinho por trás da sátira, um afeto por esse gênio ridículo que levou o narcisismo ao paroxismo artístico. É como se Dupieux dissesse: Dalí era insuportável, mas que espetáculo maravilhoso ele proporcionava.
Em vez de construir uma homenagem reverente, o filme prefere subverter o próprio conceito de tributo. As referências ao cinema experimental — como Tramas do Entardecer e Um Cão Andaluz — estão ali para nos lembrar que o surrealismo nunca foi sobre biografia, mas sobre ruptura. E Daaaaaalí! rompe com tudo, inclusive com a ideia de que estamos assistindo a algo com começo, meio e fim. A estrutura é mais próxima de um fractal: por mais que avancemos, estamos sempre voltando ao mesmo ponto, só que em outra dimensão.

Curiosamente, é Judith quem emerge como a personagem mais palpável. Em meio à confusão, à repetição e aos jogos de espelho, sua frustração, cansaço e tentativa de compreender aquele universo tornam-se o fio de humanidade do filme. Enquanto Dalí performa o tempo todo, ela tenta simplesmente existir — e é nisso que reside a ironia maior: a mulher “sem graça” se torna mais complexa que o próprio gênio excêntrico.
Daaaaaalí! é uma colagem de absurdos que desafia o espectador a deixar de lado o racional. É um convite a mergulhar na lógica dos sonhos, onde significados se embaralham e as respostas são menos importantes que as perguntas. Talvez Salvador Dalí não tenha sido um grande cineasta — como ele mesmo admite no filme —, mas foi um mestre da imagem. E Quentin Dupieux, com seu humor torto e inteligência visual, entrega aqui um retrato tão escorregadio quanto fascinante do artista e do mito.







