Downton Abbey: O Grande Final chega aos cinemas prometendo encerrar a longa saga da família Crawley e de seus fiéis empregados, mas a sensação que fica é que esse mundo poderia continuar a se expandir indefinidamente. Assim como os dois filmes anteriores, a produção aposta em um tom de despedida, mas deixa evidente que a fórmula ainda tem fôlego — e que não seria surpresa ver mais um novo capítulo surgindo futuramente.
A trama nos leva à Londres dos anos 1930, onde Lady Mary (Michelle Dockery) enfrenta o impacto de seu divórcio em uma sociedade que ainda vê a separação como escândalo. A cena de sua exclusão de um evento por conta de sua nova condição civil é tratada com seriedade quase teatral, transformando a fofoca em algo digno de uma tragédia nacional. Julian Fellowes, criador da série, brinca mais uma vez com o tom, equilibrando o drama aristocrático com uma leve dose de ironia.

Há, inclusive, momentos em que o roteiro recicla ideias já exploradas por Fellowes em Assassinato em Gosford Park, mas que ainda funcionam dentro do universo de Downton Abbey. O surgimento de Noël Coward como convidado especial, por exemplo, ajuda a suavizar o escândalo de Lady Mary e reforça o quanto a presença de celebridades poderia moldar a aceitação social da época. É um detalhe que revela o olhar perspicaz — e provocador — do autor.
Enquanto Lady Mary assume seu papel de liderança, o restante da família também encara dilemas de transição. Lord Grantham (Hugh Bonneville) reflete sobre o futuro de Downton e considera se afastar ao lado de sua esposa. Há ainda a visita do cunhado americano Harold (Paul Giamatti), acompanhado por um assessor financeiro cheio de charme que desperta interesse em Mary. Essas tramas paralelas reforçam o choque entre tradição e modernidade que sempre esteve no cerne da narrativa.
No andar de baixo, os empregados continuam sendo peças essenciais do equilíbrio da casa. O roteiro não esquece de incluir humor e cumplicidade nesses momentos, como quando a governanta Elsie Hughes tenta acalmar a ansiedade de Mrs. Patmore sobre o casamento. São cenas que resgatam a leveza e o carisma que fizeram da série um fenômeno global, ainda que beirem o nonsense em certas situações.

O filme pode soar exagerado ou até caricatural em seu retrato da aristocracia, mas essa mistura de solenidade e absurdo é justamente o que o torna tão irresistível. As escolhas de enquadramento e os diálogos carregados de gratidão e formalidade criam uma atmosfera que é, ao mesmo tempo, antiquada e estranhamente encantadora.
Assim, Downton Abbey: O Grande Final entrega um espetáculo que flerta com a paródia, mas mantém viva da essência do universo criado por Fellowes. O suposto encerramento é divertido, excêntrico e repleto de momentos que fazem sorrir e até chorar — mais um “último capítulo” que espero não seja de fato o fim.




