Duna: Parte 2

(2024) ‧ 2h46

O messias que nasce do medo

Felipe Fornari

Duna: Parte 2 não é apenas a continuação direta do épico iniciado por Denis Villeneuve, mas a consolidação de uma visão cinematográfica rara no cinema contemporâneo. Aqui, o diretor abandona qualquer hesitação e entrega um filme mais sombrio, mais intenso e deliberadamente inquietante, transformando a jornada de Paul Atreides em algo menos heroico e muito mais perturbador. O resultado é um espetáculo que impressiona pela escala, mas inquieta pelo que revela sobre poder, fé e manipulação.

Se o primeiro filme era marcado pela construção do mundo e pela sensação de ameaça iminente, esta segunda parte é consumida por ela. A narrativa mergulha de vez nas consequências da profecia e no peso simbólico que Paul passa a carregar entre os Fremen. Villeneuve trata o mito do escolhido não como promessa de salvação, mas como uma armadilha cuidadosamente arquitetada, questionando a própria ideia de destino e expondo o quanto ele pode ser fabricado.

Timothée Chalamet entrega aqui sua performance mais complexa como Paul Atreides. O personagem deixa de ser apenas um jovem em formação e se transforma em uma figura cada vez mais fria, estratégica e perigosa. Há um desconforto crescente em sua postura, em seu olhar e em suas decisões, como se o filme nos obrigasse a assistir, sem filtros, ao nascimento de algo que não deveria ser celebrado. Rebecca Ferguson acompanha essa transformação com uma Lady Jessica ainda mais determinada, cuja devoção ao plano Bene Gesserit ganha contornos quase aterradores.

Zendaya assume um papel central como Chani, funcionando como o verdadeiro eixo moral do filme. Sua desconfiança em relação às profecias e à idolatria em torno de Paul é essencial para tensionar a narrativa, oferecendo um contraponto humano e político à ascensão messiânica. A personagem deixa de ser apenas uma figura idealizada dos sonhos de Paul para se tornar alguém que questiona, resiste e sofre as consequências desse culto em formação.

Visualmente, Duna: Parte 2 é arrebatador. Villeneuve cria imagens que parecem destinadas a se tornarem parte do imaginário cinematográfico, desde as sequências com os vermes de areia até os rituais e confrontos em planetas visualmente opressivos. O design de produção aposta em contrastes extremos, explorando ambientes quase desprovidos de cor e vida, reforçando a sensação de um universo em colapso moral e espiritual.

A introdução de novos personagens amplia ainda mais o peso dramático da história. Austin Butler surge como Feyd-Rautha de forma ameaçadora e imprevisível, enquanto Florence Pugh adiciona camadas políticas importantes como a princesa Irulan. Os antagonistas deixam de ser caricaturas para se tornarem peças fundamentais de um jogo de poder muito maior, onde ninguém parece realmente inocente ou plenamente no controle.

Ao contrário de muitas grandes franquias, Duna: Parte 2 não busca conforto nem redenção. O filme termina deixando cicatrizes, não alívio, e reforça a ideia central de que o culto a heróis pode ser tão destrutivo quanto os tiranos que eles prometem derrotar. Grandioso e intimista ao mesmo tempo, Villeneuve entrega uma obra que redefine o blockbuster moderno, provando que é possível unir espetáculo, ambição artística e um olhar profundamente crítico sobre as narrativas que escolhemos acreditar.

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