Em Busca de Fellini

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07.12.2017

“Em Busca de Fellini” dialoga mais com a propaganda do que com o cinema

Há algo de muito estranho na estética de filmes contemporâneos: a linguagem audiovisual do marketing. Essa tendência vem sendo incorporada pela televisão nas últimas décadas e se apresenta como prioridade em filmes que são levianos na narrativa e chegam ao espectador mais como uma sequência de frames com fotografia bem executada. Infelizmente esse é o caso de Em Busca de Fellini, de Taron Lexton, realizador que desde muito jovem apontava para a crítica uma espécie de prodigalidade.

Em Busca de Fellini apresenta Lucy (Ksenia Solo, de Cisne Negro) como uma garota do interior de Ohio, nos Estados Unidos, vivendo uma espécie de narrativa de formação, onde a dolorida passagem para a idade adulta acontece baseada na filmografia do diretor italiano Federico Fellini. Lucy, protegida das agruras da vida pela mãe (Maria Bello, de Os Suspeitos), se vê entrando nos vinte anos sem nenhuma perspectiva da realidade. Ao sair de uma tentativa frustrada de entrevista de emprego, numa produtora de filmes pornôs, e tendo sua mobilete roubada, ela adentra ao universo onírico e muitas vezes cruel dos filmes de Fellini numa mostra cinematográfica de rua. É nesse momento que as personagens caricatas do diretor italiano entram e saem da narrativa, dando pistas para a jovem de que, talvez, ele saiba as respostas para suas perguntas.

Mesmo com uma chuva de referências à estética, motes, frames dos filmes originais e cenários italianos, o filme convence muito pouco, caindo numa história de amor on the road pouco convincente. A abordagem do longa é da clássica visão estadunidense de que o cinema feito fora dali é outro e bizarro. Apesar de Lucy ver poesia e beleza nas personagens de Giulietta Masina (atriz e esposa do realizador, que sempre esteve na maioria dos seus longas), por exemplo, ela nunca se envolve com esse cinema, parecendo que os filmes são mais um acessório para o longa cair em uma pieguice de pseudo-comédia romântica.

Um dos cineastas que mais dialoga com a herança de Fellini é o também italiano Paolo Sorrentino e, em Em Busca de Fellini, o jovem Lexton tenta abrir uma conversa com esse cinema, infelizmente falhando. É o tal olhar estrangeiro que persegue a câmera de Taron, uma confusão em reproduzir os planos de Fellini porém sempre tratando esse cinema como excêntrico, uma espécie de desvio que leva a jovem Lucy à realidade da vida comum. Será que é isso mesmo? Uma sequência de imagens sem noção – fato que a mãe e tia de Lucy repetem inúmeras vezes assistindo aos filmes – que deixariam o espectador aliviado por não viver naquele caos? A beleza corriqueira da protagonista – loira e de olhos azuis – em nada dialoga com a variedade de personagens que incomodam e tiram da zona de conforto em Fellini. Parece mais uma versão higiênica da profusão barroca do italiano.

Apesar de uma premissa interessante, o amor pelo cinema tão retratado pelo próprios italianos, Em Busca de Fellini é uma sequência de frames com cores bonitas e alguns planos suntuosos que serviriam para uma agência de viagens ou o catálogo de uma grife. Mesmo com o letreiro de baseado em fatos reais, o filme não apresenta consistência e muito menos dialoga com nosso amor pelo cinema que, com certeza, vai além da busca de um par romântico na Itália para turistas.

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AUTOR

Emanuela Siqueira

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