Entre Dois Amores

(1985) ‧ 2h41

20.03.1986

O tempo mostra que “Entre Dois Amores” é um filme bonito e agradável, rico em poesia visual e auditiva, mas com pouca substância

Ao assistir Entre Dois Amores hoje, é difícil imaginar como o longa levou o Oscar de Melhor Filme. Não há dúvida de que ele é um deslumbre para os olhos e ouvidos. A combinação da trilha sonora exuberante com a cinematografia poética, por si só, já valeria o preço do ingresso.

Mas e a história ainda merece elogios? Não há nada de errado com Entre Dois Amores. A direção de Sydney Pollack é competente e as atuações de Meryl Streep e Robert Redford são de primeira qualidade. Mas a história não passa de um melodrama comum que nunca decola. Para falar a verdade, durante as quase três horas de duração, fiquei muito mais interessado no cenário e na música do que nos personagens. Ainda assim, este foi o filme que levou o prêmio.

Pollock se inspirou nos filmes de David Lean (talvez um pouco em Terrence Malick). Não é nenhuma surpresa descobrir que, durante as tentativas de fazer o filme chegar às telas, Lean já foi um dos contratados para dirigir. A principal diferença entre este e o melhor de Lean (Lawrence da Arábia) é a profundidade. Lean fez longas épicos que, apesar de seu vasto escopo, nunca perdem de vista seus personagens. Aqui, por outro lado, o filme deleita-se com a sua pequenez.

É um filme sobre dois personagens, o amor que sentem um pelo outro e o lugar onde vivem, e nada mais. Embora a história se passe durante a Primeira Guerra Mundial, o tratamento que o filme dá ao conflito é superficial. É apenas um ruído de fundo. Temos uma sensação de isolamento – como se os eventos que ocorrem estivessem acontecendo fora do tempo e do espaço, em algum pequeno canto do mundo intocado pela marcha do progresso.

Em muitos aspectos, Entre Dois Amores é um filme retrógrado. Redford fez uma cota de histórias de amor emocionalmente gratificantes. O mesmo pode ser dito de Meryl Streep. Aqui, o casal entrega ótimas atuações, mas não um grande romance. Talvez seja isso que acontece quando os cenários e as músicas se tornam mais atraentes do que os personagens cujas vidas se desenrolam no filme.

Muito se falou, pelas matérias da época, do erotismo da cena em que Denys lava o cabelo de Karen e de como esse momento aparentemente inocente é carregado de sexualidade. A cena é bem filmada e transmite o profundo sentimento de intimidade entre os personagens. A sequência também faz o que ocorre muito pouco no decorrer da produção: conecta os personagens emocionalmente com o público. Estamos com eles no momento, não os observando a distância como no resto do filme.

A Academia adora produções grandiosas e dramáticas como Entre Dois Amores – filmes que são visualmente impactantes e têm um selo de produção. Isto explica o sucesso dele na noite do Oscar. O longa ganhou sete dos 11 prêmios para os quais foi indicado. Os prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado permanecem entre os menos celebrados na longa história do Oscar.

O tempo mostra que Entre Dois Amores é um filme bonito e agradável, rico em poesia visual e auditiva, mas com pouca substância. Ele conta uma grande história de amor de uma maneira não muito grandiosa, mas mesmo assim vale a pena ser visto por todas as outras coisas que fez certo.

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AUTOR

Felipe Fornari

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