Herança de Narcisa

(2025) ‧ 1h30

Os fantasmas da herança familiar

Renata Barbosa

O longa-metragem Herança de Narcisa, dirigido e roteirizado por Daniel Dias e Clarissa Appelt, representa uma aposta do cinema brasileiro em um gênero ainda pouco explorado na produção nacional: a combinação entre drama familiar, terror e tensão psicológica. O filme utiliza elementos do fantástico para construir uma narrativa centrada nas marcas dos traumas familiares e na impossibilidade de escapar do passado.

A trama acompanha Ana, interpretada por Paola Oliveira, que retorna ao casarão onde viveu sua infância, localizado em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, após a morte da mãe, Narcisa. O espaço da casa assume um papel simbólico, tornando-se um território de lembranças, ressentimentos e conflitos não elaborados. O breve aparecimento de Diego (Pedro Henrique Müller), irmão de Ana, reforça que ambos carregam memórias da infância, ainda que suas experiências sejam distintas. Enquanto ele, apesar de ressentimentos guardados com a mãe, também preserva lembranças afetivas da relação com a irmã, Ana permanece aprisionada na relação ressentida com a mãe.

Desde as primeiras cenas, o filme recorre a uma forte simbologia religiosa. A figura da vizinha benzedeira, que se oferece para realizar uma limpeza espiritual da casa, introduz a ideia de que não bastará organizar o espaço físico para que Ana consiga seguir em frente. Embora a personagem inicialmente rejeite esse enfrentamento espiritual, a trama conduz inevitavelmente ao acerto de contas com o passado, utilizando o recurso fantástico como meio de confronto.

Um dos aspectos mais interessantes é a escolha de Paola Oliveira para interpretar tanto Ana quanto Narcisa. A duplicidade de papéis evidencia as fronteiras difusas entre mãe e filha, sugerindo a reprodução geracional de dores e comportamentos. Considero a atuação da atriz como o principal destaque do filme, uma atuação impecável.

Mas é na construção desse conflito central que o longa se fragiliza e encontra limites. Embora crie a expectativa de revelar a origem dos traumas que marcaram a relação entre mãe e filha, essa explicação não se concretiza. A direção opta por preservar o mistério, uma escolha que ter sido para preservar o gênero de tensão psicológica. Contudo, essa ausência também deixa a desejar, não permite que se compreenda os ressentimentos que movem a protagonista. O desfecho, ao sugerir uma espécie de reconciliação ou cura, revela-se pouco inventivo e deixa a impressão de que a complexidade construída ao longo não encontra uma resolução à altura.

Outro elemento simbólico está no próprio nome da mãe, Narcisa, evidente referência ao mito grego de Narciso. A personagem é apresentada como uma ex-vedete cuja dedicação à carreira parece ter ocupado lugar central em sua vida. Essa construção sugere uma leitura sobre o narcisismo materno, mas também abre espaço para uma reflexão crítica. Ao associar o abandono afetivo à mulher que priorizou sua trajetória profissional, o filme corre o risco de reproduzir uma narrativa recorrente de culpabilização da maternidade feminina, reforçando expectativas sociais segundo as quais o sucesso profissional das mulheres seria incompatível com o exercício da maternidade. Essa dimensão merece problematização, pois pouco questiona os papéis de gênero que sustentam essa interpretação. A trilha sonora também desempenha uma função importante, em especial com “Mamãe Já Vem Aí” e “Amor de Mãe”, que dialogam com o passado artístico de Narcisa e com os conflitos afetivos que estruturam a história. As músicas funcionam como elementos de memória e de desconforto psicológico.

Mesmo com essas fragilidades e lacunas, Herança de Narcisa tem seus méritos ao buscar ampliar os horizontes do cinema nacional em direção ao terror psicológico, além de fomentar a reflexão sobre memória, maternidade e relações familiares marcadas por silêncios e ressentimentos. É o cinema nacional em busca de novos horizontes.

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