Hora do Recreio é um retrato documental que apresenta recortes da adolescência na rede pública de educação básica do Rio de Janeiro. A cidade que concentra o melhor e o pior do Brasil.
Adolescentes, ao contrário do que muitos acreditam, são seres completos. Pensantes, criativos e impulsivos. Carregam marcas de batalhas que nem eram suas, mas que precisaram travar desde a infância, determinadas pela colocação social e familiar em que nasceram. Enfrentam tudo com humor ácido e com a força insistente de querer fazer diferente.

É nesse território que Lúcia Murat mistura documental e dramatização. Ela dá zoom nas histórias desses jovens. Histórias muitas vezes sufocadas pela dureza estrutural das escolas públicas, e cria um espaço onde pensamento vira discurso, e discurso vira debate.
O filme ganha uma camada mais profunda quando os adolescentes encenam Clara dos Anjos, de Lima Barreto. O genial paralelo de uma história da jovem ingênua e humilde do subúrbio, seduzida e abandonada grávida, ecoa nas experiências contemporâneas. Os paralelos são padrões que se repetem sem cansar.
Entre racismo, machismo e desigualdades — do ontem e do hoje, Hora do Recreio evidencia que não há nada de novo sob o sol. As batalhas seguem as mesmas. Mudam os rostos, mas não a cor. Mudam os nomes, mas não a origem.

De forma artística e inteligente, o filme dá voz a essas histórias enquanto resgata denúncias do passado para iluminar mazelas atuais. Tem um texto rico – embora não o explore na totalidade que poderia, principalmente quando olhamos para a primeira escola.
Ainda assim, nos provoca a pensar: quando é que tudo muda? Em qual ponto dessa linha do tempo, tudo fica tão impossível de superar? E talvez a pergunta mais incômoda: como adolescentes conseguem ter tantas convicções ainda que ingênuos? A que hora irão abrir mão delas para aceitar o que a vida os serve?






