Kill Bill: Volume 2 abandona a fúria estilizada e sangrenta do primeiro filme para apostar em um tom mais introspectivo e emocional. Se o Volume 1 era uma explosão de ação quase ininterrupta, o Volume 2 é mais contido, centrado nos diálogos, nas motivações dos personagens e no desfecho da jornada de Beatrix Kiddo. Quentin Tarantino demonstra aqui seu lado mais maduro como roteirista e diretor, ainda que nem sempre saiba a hora de cortar o excesso.
Ao contrário do antecessor, este é um filme completo — com começo, meio e fim. Funciona como filme independente, mesmo que seja a segunda parte de um todo. E é curioso notar como o Volume 1 parece um aquecimento para o que realmente importa. A vingança continua sendo o fio condutor, mas o foco muda da catarse física para o enfrentamento emocional. Tarantino usa quase metade do filme para dar densidade aos personagens, especialmente à protagonista.

Ainda assim, a estrutura do filme sofre com sua duração excessiva. São cerca de 130 minutos, e muitos deles poderiam ser enxugados sem prejuízo. Há sequências que se arrastam ou que parecem ter sido mantidas apenas por capricho do diretor, como se cada cena fosse preciosa demais para ser cortada. Essa autoindulgência compromete o ritmo em alguns momentos, fazendo o filme tropeçar entre passagens memoráveis.
Mas há muito a se valorizar. A longa sequência de treinamento com Pai Mei, interpretado com humor e energia por Gordon Liu, é um aceno delicioso aos filmes de kung-fu clássicos. O confronto final com Bill, marcada mais por palavras do que por golpes, é inesperadamente emocionante e prova como Tarantino é capaz de subverter expectativas. O monólogo sobre Superman, por exemplo, é um dos grandes momentos do roteiro, carregado de metáforas e subtexto.
O estilo visual também continua inventivo. Tarantino faz uso de preto e branco, mudanças de proporção de tela, cenas em silêncio absoluto e até uso pontual da tela dividida. Tudo isso contribui para manter o interesse visual em uma história menos movimentada. A trilha sonora, mais uma vez impecável, resgata faixas dos anos 1970 e reforça o clima de homenagem a um cinema de gênero que sempre fascinou o diretor.

No centro de tudo está Uma Thurman, ainda mais brilhante aqui do que no Volume 1. Sua Beatrix Kiddo ganha novas camadas, revelando não só a assassina implacável, mas também a mulher ferida, a aluna dedicada e a mãe determinada. David Carradine é uma grata surpresa, trazendo complexidade ao personagem-título. Ele aparece menos como vilão e mais como um homem que tenta justificar seus atos — por mais terríveis que tenham sido.
Kill Bill: Volume 2 é menos espetacular, mas mais satisfatório. É um filme sobre consequências, não apenas sobre ações. A decisão de dividir o projeto original em dois prejudica a coesão do todo, mas este segundo capítulo, por si só, prova ser mais consistente e emocionalmente envolvente. Se o primeiro era a lâmina, o segundo é a cicatriz — e juntos, formam uma obra imperfeita, mas memorável.



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