Ladrão de Casaca

(1955) ‧ 1h46

Charme, suspeitas e sedução na Riviera

Felipe Fornari

Em Ladrão de Casaca, Alfred Hitchcock troca as sombras de seus suspenses mais sombrios pela luminosidade da Riviera Francesa sem abandonar uma de suas situações favoritas: o homem acusado de um crime que não cometeu. John Robie, antigo ladrão de joias conhecido como “o Gato”, deixou o passado criminoso para trás e desfruta de uma confortável aposentadoria quando novos roubos reproduzem exatamente seus métodos. Naturalmente, a polícia acredita que ele voltou à ativa. Para provar sua inocência, Robie decide antecipar os próximos movimentos do imitador e descobrir quem está utilizando sua reputação como disfarce. A investigação, porém, interessa menos a Hitchcock do que o jogo de aparências, desejos e desconfianças que nasce ao redor dela.

Cary Grant parece feito sob medida para essa combinação de elegância e ambiguidade. Robie pode afirmar que abandonou o crime, mas seu charme depende justamente da sensação de que continua capaz de roubar qualquer coisa que desejar. Hitchcock explora a imagem sofisticada do ator sem exigir dele a vulnerabilidade mais sombria de Suspeita, transformando-o em alguém que parece atravessar o perigo com permanente domínio da situação. O mistério permite que Grant seja simultaneamente perseguido, investigador e possível suspeito. Sabemos que Robie provavelmente diz a verdade, mas o prazer está em observar como sua antiga identidade continua determinando a maneira pela qual todos ao redor o enxergam.

É a chegada de Frances Stevens que realmente estabelece o coração de Ladrão de Casaca. Grace Kelly surge com uma combinação fascinante de elegância e provocação, interpretando uma jovem milionária que rapidamente percebe quem Robie é e transforma a descoberta em parte de um jogo de sedução. Frances não parece especialmente preocupada com a possibilidade de estar diante de um criminoso; ao contrário, é justamente essa hipótese que torna o homem mais interessante. Os diálogos entre os dois são construídos sobre insinuações, provocações e desafios, e Hitchcock encontra no casal uma química que faz a investigação parecer quase secundária. Mais do que descobrir o verdadeiro ladrão, Frances quer descobrir até onde Robie está disposto a abandonar sua cautela.

Poucas cenas sintetizam isso tão bem quanto o encontro no quarto de hotel enquanto fogos de artifício explodem do lado de fora. As joias de Frances, os olhares trocados e a paisagem iluminada convertem o diálogo em uma sequência carregada de duplos sentidos, com Hitchcock utilizando o espetáculo exterior como representação nada discreta da tensão sexual entre os personagens. O diretor trabalha constantemente com aquilo que pode ser mostrado e aquilo que precisa permanecer sugerido. Até o roubo de joias adquire conotações românticas: conquistar alguém, apropriar-se de algo precioso e descobrir se determinada pessoa merece confiança tornam-se variações de um mesmo jogo.

Visualmente, Ladrão de Casaca é um dos filmes mais deslumbrantes da carreira de Hitchcock. A fotografia de Robert Burks transforma a Côte d’Azur em uma sucessão de azuis intensos, jardins, praias, hotéis luxuosos e estradas sinuosas, enquanto os figurinos de Edith Head fazem especialmente de Grace Kelly uma extensão dessa sofisticação. A perseguição automobilística pelas montanhas aproveita a paisagem como espetáculo, e o baile de máscaras oferece ao diretor outro ambiente no qual aparência e identidade podem ser confundidas. Existe uma artificialidade deliberada em tudo isso: a Riviera não é apresentada como lugar cotidiano, mas como fantasia de riqueza e prazer na qual até o perigo parece possuir acabamento luxuoso.

Essa leveza também representa a principal limitação do filme. A identidade do verdadeiro ladrão e a investigação necessária para revelá-la nunca possuem a força dos grandes mistérios de Hitchcock, enquanto alguns personagens secundários funcionam principalmente como peças necessárias para conduzir a solução. Mesmo a ameaça policial perde importância durante longos trechos. Depois da precisão claustrofóbica de Disque M para Matar e da construção magistral do voyeurismo em Janela Indiscreta, Hitchcock parece deliberadamente menos interessado em provocar ansiedade. O suspense existe, mas permanece subordinado à comédia romântica, ao glamour das estrelas e ao prazer visual proporcionado pelos cenários.

Ladrão de Casaca pode não estar entre as realizações mais complexas de Hitchcock, mas seria injusto reduzir sua leveza a uma ausência de ideias. Por trás do luxo permanece uma história sobre confiança entre pessoas acostumadas a representar papéis: Robie precisa convencer os outros de que deixou de ser aquilo que era, enquanto Frances precisa descobrir se deseja o homem ou a fantasia do ladrão que projetou sobre ele. Grant e Kelly transformam essa tensão em um elegante duelo de sedução, e Hitchcock filma tudo com uma descontração rara em sua obra. O crime pode ser apenas um pretexto, mas poucas vezes ser perseguido, suspeitar e apaixonar-se pareceram atividades tão agradavelmente inseparáveis.

ONDE ASSISTIR

OUTRAS CRÍTICAS