Em Ladrão de Casaca, Alfred Hitchcock troca as sombras de seus suspenses mais sombrios pela luminosidade da Riviera Francesa sem abandonar uma de suas situações favoritas: o homem acusado de um crime que não cometeu. John Robie, antigo ladrão de joias conhecido como “o Gato”, deixou o passado criminoso para trás e desfruta de uma confortável aposentadoria quando novos roubos reproduzem exatamente seus métodos. Naturalmente, a polícia acredita que ele voltou à ativa. Para provar sua inocência, Robie decide antecipar os próximos movimentos do imitador e descobrir quem está utilizando sua reputação como disfarce. A investigação, porém, interessa menos a Hitchcock do que o jogo de aparências, desejos e desconfianças que nasce ao redor dela.
Cary Grant parece feito sob medida para essa combinação de elegância e ambiguidade. Robie pode afirmar que abandonou o crime, mas seu charme depende justamente da sensação de que continua capaz de roubar qualquer coisa que desejar. Hitchcock explora a imagem sofisticada do ator sem exigir dele a vulnerabilidade mais sombria de Suspeita, transformando-o em alguém que parece atravessar o perigo com permanente domínio da situação. O mistério permite que Grant seja simultaneamente perseguido, investigador e possível suspeito. Sabemos que Robie provavelmente diz a verdade, mas o prazer está em observar como sua antiga identidade continua determinando a maneira pela qual todos ao redor o enxergam.

É a chegada de Frances Stevens que realmente estabelece o coração de Ladrão de Casaca. Grace Kelly surge com uma combinação fascinante de elegância e provocação, interpretando uma jovem milionária que rapidamente percebe quem Robie é e transforma a descoberta em parte de um jogo de sedução. Frances não parece especialmente preocupada com a possibilidade de estar diante de um criminoso; ao contrário, é justamente essa hipótese que torna o homem mais interessante. Os diálogos entre os dois são construídos sobre insinuações, provocações e desafios, e Hitchcock encontra no casal uma química que faz a investigação parecer quase secundária. Mais do que descobrir o verdadeiro ladrão, Frances quer descobrir até onde Robie está disposto a abandonar sua cautela.
Poucas cenas sintetizam isso tão bem quanto o encontro no quarto de hotel enquanto fogos de artifício explodem do lado de fora. As joias de Frances, os olhares trocados e a paisagem iluminada convertem o diálogo em uma sequência carregada de duplos sentidos, com Hitchcock utilizando o espetáculo exterior como representação nada discreta da tensão sexual entre os personagens. O diretor trabalha constantemente com aquilo que pode ser mostrado e aquilo que precisa permanecer sugerido. Até o roubo de joias adquire conotações românticas: conquistar alguém, apropriar-se de algo precioso e descobrir se determinada pessoa merece confiança tornam-se variações de um mesmo jogo.
Visualmente, Ladrão de Casaca é um dos filmes mais deslumbrantes da carreira de Hitchcock. A fotografia de Robert Burks transforma a Côte d’Azur em uma sucessão de azuis intensos, jardins, praias, hotéis luxuosos e estradas sinuosas, enquanto os figurinos de Edith Head fazem especialmente de Grace Kelly uma extensão dessa sofisticação. A perseguição automobilística pelas montanhas aproveita a paisagem como espetáculo, e o baile de máscaras oferece ao diretor outro ambiente no qual aparência e identidade podem ser confundidas. Existe uma artificialidade deliberada em tudo isso: a Riviera não é apresentada como lugar cotidiano, mas como fantasia de riqueza e prazer na qual até o perigo parece possuir acabamento luxuoso.

Essa leveza também representa a principal limitação do filme. A identidade do verdadeiro ladrão e a investigação necessária para revelá-la nunca possuem a força dos grandes mistérios de Hitchcock, enquanto alguns personagens secundários funcionam principalmente como peças necessárias para conduzir a solução. Mesmo a ameaça policial perde importância durante longos trechos. Depois da precisão claustrofóbica de Disque M para Matar e da construção magistral do voyeurismo em Janela Indiscreta, Hitchcock parece deliberadamente menos interessado em provocar ansiedade. O suspense existe, mas permanece subordinado à comédia romântica, ao glamour das estrelas e ao prazer visual proporcionado pelos cenários.
Ladrão de Casaca pode não estar entre as realizações mais complexas de Hitchcock, mas seria injusto reduzir sua leveza a uma ausência de ideias. Por trás do luxo permanece uma história sobre confiança entre pessoas acostumadas a representar papéis: Robie precisa convencer os outros de que deixou de ser aquilo que era, enquanto Frances precisa descobrir se deseja o homem ou a fantasia do ladrão que projetou sobre ele. Grant e Kelly transformam essa tensão em um elegante duelo de sedução, e Hitchcock filma tudo com uma descontração rara em sua obra. O crime pode ser apenas um pretexto, mas poucas vezes ser perseguido, suspeitar e apaixonar-se pareceram atividades tão agradavelmente inseparáveis.








