Love Kills

(2025) ‧ 1h36

14.05.2026

Amor, sangue e solidão urbana

Love Kills encontra nos becos, prédios decadentes e luzes artificiais de São Paulo um cenário perfeito para revisitar o imaginário vampírico sob uma perspectiva bastante brasileira. Ao deslocar criaturas tradicionalmente associadas à aristocracia gótica para o centro urbano marcado pela exclusão social, Luiza Shelling Tubaldini cria um filme que mistura romance, horror e comentário social sem abrir mão de uma forte identidade estética.

A relação entre Helena e Marcos funciona como eixo emocional da narrativa. Enquanto ela tenta controlar sua natureza violenta e sobreviver à margem daquela sociedade noturna, ele surge como alguém igualmente fragilizado, tentando reorganizar a própria vida depois de experiências traumáticas. O encontro entre os dois transforma o longa numa história sobre pertencimento e desejo, onde o amor aparece quase como uma tentativa desesperada de escapar da própria condição.

O aspecto mais marcante de Love Kills está em sua atmosfera. A fotografia aposta em cores intensas, sombras carregadas e reflexos neon que transformam São Paulo em uma cidade ao mesmo tempo sedutora e ameaçadora. Existe um cuidado evidente em construir uma fantasia urbana que dialoga com o terror clássico sem abandonar os elementos contemporâneos da metrópole brasileira. As ruas vazias, os apartamentos deteriorados e os espaços esquecidos ajudam a criar um universo que parece constantemente à beira do colapso.

A direção de arte também merece destaque pela maneira como abraça o exagero visual do gênero. O filme entende que vampiros carregam teatralidade e sensualidade, utilizando figurinos, maquiagem e cenários para reforçar esse clima de decadência romântica. Em diversos momentos, a experiência funciona muito mais pela força imagética do que necessariamente pela construção narrativa, e há mérito nisso. Tubaldini demonstra clara paixão pelo horror e por suas convenções.

Ao mesmo tempo, o longa tenta associar o vampirismo a discussões sobre marginalização e invisibilidade social. Essas criaturas habitam regiões esquecidas da cidade, transitam entre pessoas ignoradas pelo restante da sociedade e parecem sobreviver justamente porque ninguém realmente olha para elas. Ainda que algumas metáforas sejam mais evidentes do que sutis, existe um interesse legítimo em aproximar o fantástico de questões urbanas e humanas bastante concretas.

O roteiro, porém, encontra dificuldades em certos momentos. Alguns diálogos soam artificiais demais, carregados de frases excessivamente elaboradas que nem sempre encaixam naturalmente na boca dos personagens. Além disso, determinadas motivações e mudanças de comportamento surgem de forma abrupta, especialmente na reta final. Há conflitos que parecem existir mais pela necessidade dramática do que por uma construção sólida ao longo da narrativa.

Mesmo com essas oscilações, Love Kills permanece uma experiência envolvente e visualmente muito rica. O filme talvez não alcance toda a profundidade emocional e narrativa que busca, mas compensa isso com personalidade, ambição estética e uma rara vontade de experimentar dentro do terror brasileiro contemporâneo. Entre romance melancólico, violência estilizada e fantasia urbana, a obra encontra um espaço próprio e prova que ainda existem caminhos bastante interessantes para o horror nacional explorar.

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AUTOR

Felipe Fornari

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