Cada um Vive como Quer

(1970) ‧ 1h38

"Cada um Vive como Quer": Entre o piano e a estrada - as notas dissonantes de uma identidade partida

Felipe Fornari

No coração de Cada um Vive como Quer, está um homem em constante fuga. Robert Dupea abandonou o mundo erudito da música clássica para viver como operário em campos de petróleo da Califórnia, onde seus dias se misturam ao tédio, à cerveja e às reclamações de sua companheira Rayette. No entanto, a notícia da doença de seu pai o obriga a confrontar o passado que tanto tentou apagar — e a viagem ao norte dos Estados Unidos se transforma também em uma jornada interna, entre o que se é, o que se deseja ser e o que se recusa a aceitar.

Jack Nicholson entrega aqui uma das atuações mais marcantes de sua carreira, ainda que contida e introspectiva. Seu Bobby Dupea é um protagonista repleto de silêncios, ressentimentos e impulsos contraditórios. Ao mesmo tempo em que rejeita a rigidez de sua família de classe média alta, tampouco se sente confortável na rotina operária que escolheu. Ele é, sobretudo, um homem desajustado — e Cada um Vive como Quer encontra sua força justamente ao explorar essa desconexão com o mundo ao redor.

Muito mais interessado em atmosfera do que em trama, o filme conduz o espectador por situações aparentemente banais — uma discussão num posto de gasolina, uma conversa atravessada no jantar — que revelam, em camadas, as tensões entre pertencimento e alienação. A famosa cena em que Bobby tenta negociar seu pedido num restaurante e acaba tendo um colapso verbal é um microcosmo do que o filme trata: os limites entre o indivíduo e as normas sociais, entre a frustração e o conformismo.

Há também uma riquíssima oposição visual entre os cenários: os campos empoeirados do sul, onde reina o calor e a informalidade, contrastam com o frio úmido e os interiores estéreis do norte, onde habita sua família. Essa transição reforça a sensação de deslocamento constante. Bobby, ao retornar, não encontra refúgio, mas sim um espelho desconfortável do que poderia ter sido. Suas relações com os familiares — a irmã desajustada, o irmão distante, o pai paralisado — apenas acentuam sua decisão de seguir em movimento, ainda que sem rumo.

A música clássica, elemento simbólico central do longa, surge não como uma trilha de enlevo ou nobreza, mas como um lembrete melancólico de uma vocação abandonada. O título original Five Easy Pieces remete a composições que Bobby toca ao longo do filme, numa tentativa frustrada de reaproximação com sua origem. São peças simples, acessíveis — mas não menos carregadas de significados, como se o protagonista apenas pudesse acessar as margens de um passado irrecuperável.

Ao abandonar Rayette em um posto de gasolina, Bobby sela sua recusa final por qualquer tipo de afeto ou estabilidade. O gesto, cruel e silencioso, é também profundamente coerente com o arco do personagem. Em vez de uma redenção, Cada um Vive como Quer oferece um retrato nu e cru da solidão moderna, onde a liberdade individual vem acompanhada de vazio, e a autonomia, de uma ausência irreparável de laços.

Com ecos de outros filmes da contracultura como Sem Destino e A Primeira Noite de um Homem, a obra de Bob Rafelson é um marco do cinema americano dos anos 1970 por sua recusa a narrativas redentoras. Um estudo de personagem profundamente humano, que nos desafia a lidar com a inquietação, a ambivalência e a falta de respostas — aquilo que, afinal, torna a existência tão complexa.

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