Marty

(1955) ‧ 1h30

10.06.1955

O encanto duradouro de "Marty": simplicidade e romance no cinema

É um clichê dizer que “filmes não são mais como antes”, mas, no caso de Marty, é verdade. O romance simples baseado em personagens é coisa do passado; mesmo os cineastas independentes raramente tentam algo assim hoje em dia. A primeira coisa que se nota ao assistir ao vencedor do Oscar de Melhor Filme de 1956 é como tudo é discreto e simples. Os romances do século XXI comercializam fantasia – ou são melodramas ou apresentam muita comédia boba.

Marty respeita seus personagens. Eles têm tempo para interagir e se apaixonar e as complicações que enfrentam não são antigos amores que reaparecem ou outras situações semelhantes. São questões do mundo real com as quais os espectadores podem se identificar. Na verdade, não existe um elemento do filme que exija a suspensão da descrença. Embora os tempos tenham mudado, as emoções humanas não.

O filme foi adaptado por Paddy Chayefsky, sendo um raro exemplo de filme adaptando um programa de TV, e não o contrário. Rod Steiger, que interpretou o papel originalmente, foi substituído por Ernest Borgnine. Borgnine ganharia o único Oscar de uma longa e bem-sucedida carreira com Marty. O diretor Delbert Mann, em sua estreia no cinema, também levou para casa a estatueta. Betsy Blair e Joe Mantell também foram indicados, mas não venceram.

Ao falar sobre o filme, Chayefsky chamou-o de “a história de amor mais comum do mundo”. E é aí que reside o seu apelo. Nenhum dos protagonistas, Marty (Borgnine) e Clara (Blair), teve sucesso no amor. Ambos já ultrapassaram os prazos de validade socialmente aceitáveis ​​para o casamento na época – ele com 34 anos e ela com 29. Na cena de abertura, que mostra Marty atendendo clientes no açougue onde trabalha, ele é confrontado por duas mulheres por não ser casado. Sua mãe está igualmente preocupada com a possibilidade de ele acabar solteiro. Clara praticamente desistiu e está satisfeita com o papel de solteirona. Nenhum dos dois é atraente; Marty refere-se a si mesmo como “feio” e a melhor descrição que alguém tem para Clara é “simples”. Hollywood tem uma longa história de escalar pessoas bonitas para romances – a exceção aqui é impressionante.

Os dois não se conhecem de maneira “fofa”, embora seu primeiro encontro seja fortuito. A mãe de Marty, Teresa (Esther Minciotti), convence-o a ir com um amigo a um salão de dança na esperança de que ele pudesse encontrar uma futura noiva. Ele está tendo pouca sorte quando encontra Clara depois que ela foi abandonada por seu namorado. Eles saem juntos do salão de dança e passam grande parte da noite caminhando pelas ruas do Bronx, conhecendo-se e descobrindo que compartilham muitos dos mesmos medos e preocupações.

À medida que sua paixão cresce, Marty torna-se animado e falante, permitindo que sua personalidade venha à tona. Tendo a oportunidade de abandonar Clara por uma “coisa certa”, ele opta por ficar com ela e a leva para casa para conhecer sua mãe. Teresa, porém, não está nada apaixonada por essa nova mulher na vida de seu filho. Embora ela tenha pressionado Marty para “encontrar uma garota”, agora que isso é uma realidade, ela fica ressentida e com ciúmes, especialmente quando Clara comenta que acredita que pais idosos não deveriam viver sob o mesmo teto que casais jovens. O medo do abandono substitui a preocupação de Teresa com o estado civil de Marty.

Ernest Borgnine fez Marty durante um período em que ele aparecia em diversos filmes por ano, muitas vezes dramáticos (como o vencedor do Oscar A um Passo da Eternidade). Foi um risco escalá-lo como Marty – um cara doce e solitário, sem nada de drama palpável em sua vida – mas Borgnine interpreta-o magnificamente. Além de mostrar vulnerabilidade, ele proporciona vislumbres de saudade e frustração enquanto forças conspiram para impedi-lo de um segundo encontro com Clara. Ele e Betsy Blair exibem uma química estonteante.

Marty não tem um final comum. Não segue os personagens até o altar nem nos deixa com a imagem deles se beijando. A cena final é satisfatória, porém, porque embora nenhuma das histórias seja finalizada como esperamos, a sensação da vida real é ainda mais prazerosa.

Com um breve tempo de duração de 90 minutos (o menor vencedor do Oscar de Melhor Filme de todos os tempos), Marty nunca almeja querer algo mais do que sua simplicidade pode alcançar. Tantos anos após sua estreia, ainda é fácil ver um pouco de si mesmo em Marty como deve ter sido em 1956.

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AUTOR

Felipe Fornari

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