Me Ame com Ternura

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Quando amar e existir se tornam atos de resistência

Me Ame com Ternura é um drama francês, dirigido por Anna Cazenave Cambet, de aparente simplicidade, mas de grande densidade política e afetiva. Baseado no livro homônimo e autobiográfico Love Me Tender, de Constance Debré, o longa acompanha Clémence, uma mulher por volta de seus quarenta anos que decide romper com as expectativas sociais que moldaram sua vida adulta: abandona a carreira da advocacia, assume sua homossexualidade, investe na escrita literária e enfrenta as consequências dessas escolhas em uma sociedade marcada pelo machismo, pela homofobia e pela hipocrisia moral.

O filme se estrutura a partir da batalha judicial travada entre Clémence e seu ex-marido, Laurent, após ela revelar que está se relacionando com mulheres. O que parecia uma separação civilizada, é transformada em uma guerra punitiva e cruel, na qual o ex-companheiro mobiliza o sistema judiciário como instrumento de controle e vingança. Por meio de calúnias e acusações infundadas, Laurent obtém a guarda unilateral de Paul, o filho de oito anos do casal, impedindo a convivência materna e lançando Clémence em um estado prolongado de angústia e espera.

No entanto, Me Ame com Ternura não é um filme sobre maternidade nos moldes tradicionais, nem mesmo sobre a idealização do vínculo materno. É mais sobre o amor, sobre a honestidade dos laços afetivos, sobre o desejo e a liberdade para além das expectativas sociais. Trata-se, sobretudo, de um filme sobre a emancipação feminina.

A violência de gênero atravessa o filme de maneira estrutural. Laurent representa a face socialmente legitimada do patriarcado, aparentemente estável, moralmente aceitável, mas inseguro, ressentido e incapaz de lidar com a autonomia da ex-esposa. Para ele, ser escritora, lésbica e mãe são condições incompatíveis. Cada gesto de Clémence é julgado, cada escolha afetiva é penalizada, e o desejo feminino é tratado como algo a ser corrigido ou criminalizado.

A narrativa aposta na introspecção e nas sutilezas. Assim, o foco recai sobre a experiência subjetiva de Clémence e sobre como ela lida com o esvaziamento cotidiano provocado pela ausência do filho e pela morosidade do sistema judiciário francês, que transforma relações humanas em números, protocolos e prazos indefinidos. O tempo que passa sem respostas claras é, talvez, uma das violências mais dilacerantes retratadas pelo filme.

Nesse sentido, as escolhas estéticas são decisivas. Elementos recorrentes como a natação diária da protagonista, funcionam como refúgio e metáfora de resistência, onde o corpo encontra algum equilíbrio. Clémence evita parques e espaços ocupados por crianças, numa tentativa de proteger-se da própria dor, enquanto busca pequenos prazeres e brechas de liberdade em sua rotina. A bicicleta, a chuva, o rio, a piscina, a discoteca, são elementos que constituem uma poética do cotidiano que traduz o estado emocional da personagem. Embora o filme apresente alguns momentos de duração excessiva, parece se justificar pela necessidade de acompanhar o ritmo interno da personagem e da lentidão opressiva do processo judicial.

Vale destacar ainda, a atuação impecável de Vicky Krieps, um dos grandes trunfos do longa. A atriz transmite as dores, os dilemas e a força de Clémence, sem cair no melodrama. Sua personagem resiste, com resiliência e dignidade, às crueldades impostas pelo afastamento forçado do filho.

Me Ame com Ternura é clássico filme francês, daqueles que incomoda e emociona. Um retrato sutil da angústia de viver em uma sociedade que se diz moderna, mas que ainda pune mulheres que ousam desejar e existir fora das normas, propondo à reflexão sobre a liberdade, o amor e a condição de ser mulher.

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