Em tempos nos quais a velocidade da informação frequentemente se sobrepõe à apuração, revisitar a trajetória de um jornalista como Zuenir Ventura é também refletir sobre o que se espera da imprensa e de seus profissionais. Em Mestre Zu, Zelito Viana reúne colegas de redação, amigos e familiares para reconstruir a vida de um dos nomes mais importantes do jornalismo brasileiro. O resultado vai além de uma homenagem a uma carreira longeva: é um mergulho nos dilemas éticos, nas transformações políticas e nos bastidores de uma profissão que ajudou a registrar algumas das páginas mais turbulentas da história recente do país. Ao recuperar essas memórias, o documentário resgata não apenas um homem, mas uma maneira de compreender o compromisso de informar.
A estrutura é simples e se apoia na força dos depoimentos, conduzidos a partir de um encontro que transforma lembranças individuais em uma espécie de memória coletiva. Jornalistas que trabalharam com Zuenir compartilham histórias de redação, decisões difíceis e episódios que revelam como a publicação de uma notícia podia exigir muito mais do que a confirmação de um fato. Há casos em que o dilema não estava em descobrir a verdade, mas em decidir se ela deveria ser publicada, considerando as consequências para as pessoas envolvidas. Essas situações ajudam a compreender a dimensão humana do trabalho jornalístico, feito também de hesitações, responsabilidades e escolhas sem respostas confortáveis.

É justamente quando o filme recupera os conflitos éticos que sua proposta ganha maior relevância. As histórias envolvendo figuras como Pedro Nava, Leon Hirszman e Glauber Rocha mostram que o interesse público nem sempre se confunde com a curiosidade coletiva, e que a divulgação de uma informação pode causar danos irreversíveis. O documentário não apresenta essas decisões como fórmulas prontas, mas como problemas que exigiam debate, consulta e reflexão dentro das redações. Em um cenário contemporâneo marcado pela circulação instantânea de notícias e pela dificuldade de conter informações falsas, essas recordações funcionam como um lembrete oportuno: apurar também significa reconhecer o peso das palavras e assumir a responsabilidade pelo que se torna público.
A trajetória pessoal de Zuenir acrescenta outra camada ao retrato. Filho de um pintor de paredes, ele passou por diferentes ocupações antes de construir uma carreira que o levaria a algumas das principais publicações brasileiras e à Academia Brasileira de Letras. Essa ascensão não é tratada apenas como uma história de sucesso individual, mas como parte de uma geração que atravessou a ditadura, enfrentou a censura e encontrou na imprensa um espaço de resistência e interpretação do país. Os relatos de amigos e antigos colegas ajudam a situar o jornalista em seu tempo, revelando tanto a influência que exerceu sobre profissionais mais jovens quanto os laços pessoais que cultivou ao longo de décadas.
A presença de imagens de arquivo amplia o alcance dessas lembranças, conectando experiências particulares a acontecimentos que marcaram a história brasileira. A ditadura militar, a mobilização cultural, o retorno dos exilados e as transformações políticas deixam de ser apenas referências cronológicas para reaparecerem como experiências vividas por quem estava nas redações tentando compreender e registrar os acontecimentos. Essa combinação entre testemunhos e registros históricos dá ao documentário um valor que ultrapassa a celebração biográfica. Mesmo quando o tom elogioso dos entrevistados ameaça transformar o retrato em uma homenagem excessivamente reverente, a força dos episódios narrados preserva o interesse e oferece ao espectador material para refletir sobre a relação entre jornalismo e democracia.

A direção de Zelito Viana, em parceria com Edna Savaget, demonstra sensibilidade ao permitir que as histórias conduzam o filme sem impor uma interpretação rígida a cada depoimento. A opção por reunir tantas vozes, contudo, traz uma limitação: a admiração compartilhada por Zuenir reduz o espaço para contradições mais profundas e para uma investigação crítica de eventuais falhas ou mudanças de perspectiva ao longo de sua carreira. Em alguns momentos, a sucessão de lembranças se aproxima de uma coleção de episódios, e uma organização temática mais incisiva poderia tornar certas conexões ainda mais claras. Ainda assim, a diversidade de testemunhos e a riqueza do material histórico sustentam uma narrativa envolvente, especialmente quando os relatos revelam os custos pessoais e profissionais de exercer o jornalismo em períodos de repressão.
Ao final, Mestre Zu se mostra um documentário valioso não apenas pelo que conta sobre Zuenir Ventura, mas pelo que preserva de uma cultura profissional baseada na apuração, no debate e na consciência das consequências de uma notícia. Sua importância está em recordar que o jornalismo não se resume a publicar primeiro, mas exige compreender, verificar e, quando necessário, questionar a própria decisão de publicar. Embora a admiração dos participantes deixe algumas dimensões do personagem menos exploradas, o filme encontra força na memória de uma geração que ajudou a formar outras e a documentar as transformações do Brasil. É uma homenagem afetuosa e um registro histórico oportuno, capaz de lembrar às novas gerações que a credibilidade da imprensa não nasce da velocidade, mas do rigor e da responsabilidade.








