Por esses dias li uma frase creditada a Beethoven, que dizia “nunca rompa o silêncio se não for para melhorar-lo”. É essa a sensação que tive ao acompanhar Milonga, o primeiro longa-metragem da diretora uruguaia Laura González, que constrói uma narrativa profunda sobre as marcas invisíveis de uma vida escrita por violência doméstica. O trauma gera o silêncio, que dificulta o romper dos ciclos de dor. E o roteiro explora isso muito bem. A cada cena conhecemos melhor a solitária Rosa (Paulina Garcia), nossa personagem principal, e nos emocionamos com ela.

Rosa é levada a se reconstruir após a morte do marido agressor. Mas essa mudança não será fácil, já que entendemos que existem correntes invisíveis que dificultam esse processo. Por isso não espere uma narrativa rápida, pelo contrário. O filme tem um passo lento, mas com uma direção segura. É complicado representar o luto no cinema sem recorrer a clichês, e o silêncio nem sempre é a escolha estética mais fácil. É difícil contar uma história com poucos diálogos. É necessário muita preparação, tanto da direção, quanto dos atores. E Paulina García sabia muito bem o que estava fazendo.
Por exemplo, na técnica corporal de Paulina, já que Rosa tenta se curar através da dança. Apesar de Laura González optar por uma fotografia fria, ela se choca com os intensos momentos de dança. Milonga se desenvolve com um ritmo próprio, mas sem perder o passo. O filme passa veracidade, já que é possível acreditar que Rosa existe. E realmente existe. Talvez, por já ter conhecido outras Rosas durante minha vida, eu consegui identificar essas histórias convergindo na personagem.

É um bom filme, mas não espere por algo arrebatador. Ansiosos não se sentiram à vontade, já que a direção exige uma certa contemplação do seu público. Mas vale a pena. É uma experiência típica de filmes uruguaios e argentinos. Para os amantes de cinema latino, Milonga será uma ótima escolha!




