Nem Tudo é Paz e Amor

(2026) ‧ 1h28

Os filhos da contracultura

Renata Barbosa

Nem Tudo é Paz e Amor é um documentário que se desvia do convencional ao propor um olhar inédito sobre um dos períodos mais férteis da cultura brasileira. Em vez de entrevistar os protagonistas da contracultura dos anos 1970, o filme dá voz a seus filhos, oferecendo uma perspectiva diferente e divertida sobre o que significava crescer em um ambiente onde a liberdade era a única regra. O documentário tem um encanto que nos faz querer adentrar a tela para conversar com as pessoas que, de dentro de casa, testemunharam a construção de um novo mundo.

Dirigido por Betão Aguiar (filho de Paulinho Boca de Cantor, dos Novos Baianos, e da produtora Marília Aguiar), e idealizado por sua amiga Jasmin Pinho (falecida em 2020), o documentário é construído a partir de memórias afetivas da infância dos primogênitos de ícones como Itamar Assumpção e Moraes Moreira. A opção da direção é entrevistar os filhos de figuras da época, a contracultura do ponto de vista de quem era criança na época. Nomes como Moreno Veloso, Nara Gil, Beto Lee, Sarah Sheeva e Anelis Assumpção compartilham relatos que vão do lúdico ao doloroso, expondo as dores e delícias de serem filhos daquela geração, por vezes, conflituosas.

Entre a celebração de um ideal de vida coletiva e a exposição de suas contradições, é um retrato sobre a tentativa de ruptura com os padrões burgueses com atos políticos e artísticos. Expõe o que foi crescer sem regras, em uma sociedade extremamente conservadora, patriarcal, misógina e autoritária, um universo onde temas como sexo e drogas não eram tabu, uma abertura total que, no entanto, também gerava desconfortos. A escolha artística e libertária dos pais, desde pequenas escolhas como a ausência de sofás em casa e a dificuldade na escolha dos nomes dos filhos, por exemplo, traduziu a complexidade do que foi o dia a dia daquelas crianças.

Toda essa experimentação ocorria sob o peso de uma ditadura militar, de uma geração que buscou a liberdade em meio à repressão. A rebeldia na vida coletiva, dos ideais hippies e psicodélicos também foram formas de resistência política e tentativa de criação de novas estruturas sociais.

Nem Tudo é Paz e Amor revisita com maestria a contracultura nacional. Constrói um mosaico de memórias que humaniza seus ícones e revela o preço dessa experiência, nos faz entender que, por trás dos ideais de paz e amor, havia pessoas reais tentando encontrar seu próprio caminho.

ONDE ASSISTIR

OUTRAS CRÍTICAS