“Não sei, só sei que foi assim”… Impossível ser brasileiro e não entender a profundidade desta frase, do valor e sentimento que ela carrega. E nada mais adequado que começar exatamente desse jeito essa oportunidade de olhar e escrever sobre: O Auto da Compadecida, um dos mais primorosos tesouros que temos na nossa cultura, impossível algo mais brasileiro que isso. Qualquer um pode pensar no vira-lata caramelo, no filtro São João, no piso de caco ou na roupinha de crochê dos botijões de gás e eletro portáteis. Mas nada fala mais do Brasil e é tão brasileiro como essa obra de arte da nossa cinematografia.
Quem mais poderia trazer algo tão puro e genuíno como Ariano Suassuna, muito maior que um escritor, esse sim o maior contador de casos e causos que esse país já teve. E com tanto trato Guel Arraes trouxe tão magnífica obra para as telas, e isso já dá pra se dizer que é genial demais, alguém conseguir refletir exatamente o que a obra escrita dizia e nos apresentar na carne e osso os nossos maiores herois, Chicó e João Grilo, sim nada mais heroico nesse Brasil do que a representação desses personagens, vividos de maneira esplêndida por Selton Mello e Matheus Nachtergaele, em tempos em que a cultura nacional estava tão desvalorizada, onde preferíamos endeusar as cafonices da gringa a admitir que podemos produzir algo muito mais identitário e carregado de latinidade e dede brasilidade, mostrando que realmente somos potencial nas artes.

Sabemos que nossa criatividade está muito ligada a necessidade e as dificuldades que são apresentadas na vida de qualquer brasileiro médio no dia a dia, e isso acaba se tornando nossa força motriz, e o Auto apresenta essa rotina de vida de uma maneira ainda mais cheia de perrengues, prosas e poesias. E obviamente carregado de religiosidade e esperança, seja no lúdico do popularesco ao grande elemento teatral que é contado, e essa mistura traz esse Auto católico, que maestria é essa de Ariano que nos faz rir da desgraça e da dificuldade? Que nos faz amar personagens tão distantes de uma estética global e completamente tortos? Que espelho é esse que nos revela tão naturalmente? E ao descolamento que precisamos fazer do que vem de uma colonização tão forçada, que precisamos falar mais alto, sermos mais gestuais e caricatos para sermos notados, e que nossa comédia dá um passeio em qualquer comédia do estrangeiro, e ninguém mais que Chicó e João Grilo para nos definir tão bem.
Duas criaturas tão esquálidas e sofridas, que de forma simples e poética nos mostram os caminhos tão duros dos sertanejos que percorreram e por vez outra ainda percorrem esse país, que laboratório foi esse que nas próprias escritas de Ariano e na direção de Guel tivemos a mais bela oportunidade de aproveitar, não dá para imaginar outro tipo de laboratório que não seja o da empatia e observação. Ter um grande e refinado olhar para as mazelas e conseguir transformar isso em comédia de manifestação política, dos sujeitos que mesmo na enrolação e nas mentiras conseguem na realidade provar que tudo que é feito por necessidade famélica tem o seu perdão.

Um elenco incrível, que afortunados somos em ver Fernanda Montenegro interpretando Nossa Senhora, a advogada dos aflitos e necessitados, como pode um papel ser tão adequado e perfeito para alguém, que aqui obviamente não se faz necessário explicar a sua interpretação, afinal após dizer Fernanda Montenegro não se precisa de mais nada, já vale como o principal elogio na arte dramática. E como dizem, Fernanda interpreta qualquer papel de qualquer grande atriz de Hollywood, mas nenhuma atriz seria capaz de interpretar qualquer papel que tenha sido de Fernanda Montenegro.
Talvez estas palavras estejam carregadas de exagero, mas não há exagero, quem sou eu pra criticar o melhor do Brasil já visto em uma tela de cinema. Ou talvez seja esse exagero que nos faz tão vibrantes e originais.





