O Contador 2 chega como uma grata surpresa: não apenas é melhor que seu antecessor, como consegue transformar sua mistura improvável de matemática, violência e neurodivergência num thriller excêntrico e inesperadamente cativante. A continuação traz de volta Christian Wolff, vivido por Ben Affleck, em mais uma missão que envolve criminosos, números e tiroteios — com a mesma rigidez emocional de sempre e uma precisão letal que o torna uma força imparável. Mas, dessa vez, o filme encontra um equilíbrio mais afinado entre ação, humor e esquisitice.
Na trama, Wolff é convocado pela agente Marybeth Medina (Cynthia Addai-Robinson) para investigar o assassinato de seu antigo superior. O que começa como uma investigação relativamente simples logo se transforma em uma trama que envolve refugiados, uma assassina misteriosa e um esquema de lavagem de dinheiro passado por uma pizzaria (!). Como no primeiro filme, boa parte da graça está na forma como Christian decifra o mundo com lógica fria, enxergando conexões invisíveis até mesmo para os mais experientes investigadores.

Se o primeiro O Contador tinha uma trama um pouco desorganizada e um tom indeciso em alguns momentos, O Contador 2 abraça seu caos com prazer. A direção de Gavin O’Connor continua segura, mas agora há uma liberdade maior para deixar a história respirar. As cenas se alongam, muitas vezes parecendo mais momentos de “convivência” do que sequências tradicionais de ação — e curiosamente, isso funciona. O filme flerta com o formato de “hangout movie”, aquele em que mais importa estar com os personagens do que seguir à risca os desdobramentos da trama.
Ben Affleck entrega aqui uma de suas atuações mais curiosas. Seu Christian continua rígido e contido, mas há um leve (e bem-vindo) afrouxamento da casca que o isola do mundo. O personagem ainda não entende nuances emocionais, mas começa a se permitir, aos poucos, alguma interação genuína. Uma cena em que ele participa de uma dança country em um bar é reveladora: esquisita, engraçada e estranhamente tocante, ela resume bem o espírito do filme — entre o ridículo e o comovente, entre a eficiência e o absurdo.
A presença de Brax (Jon Bernthal), irmão de Christian, é mais destacada desta vez, e os dois formam uma dupla inesperadamente carismática. Bernthal interpreta Brax com uma intensidade quase animalesca, e o contraste entre os irmãos — o sociopata impulsivo e o gênio calculista — gera bons momentos de humor ácido e ação coreografada com brutalidade cirúrgica. É como se o filme soubesse que está exagerando e não fizesse questão de disfarçar.

Mesmo com algumas passagens narrativas desconexas e um terceiro ato mais genérico, O Contador 2 nunca perde o charme do inusitado. Há hackers adolescentes, prostitutas aleatórias com funções narrativas difusas, uma assassina com passado de ficção científica e uma subtrama envolvendo pizza que só poderia existir nesse universo. O roteiro pode parecer desconjuntado, mas tudo se encaixa, de forma esquisita e eficiente, como os cálculos que Christian faz de cabeça.
No fim das contas, O Contador 2 mostra que essa franquia encontrou sua linguagem: a da ação cerebral com alma de outsider. É um filme que não se leva tão a sério, mas que leva a sério seus personagens, por mais peculiares que sejam. E entre números, tiroteios e equações emocionais mal resolvidas, entrega uma continuação que melhora o original e nos deixa curiosos pelo que ainda está por vir.



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