O Contador é um daqueles thrillers que surpreendem pela forma como combinam gêneros improváveis. Parte drama sobre neurodivergência, parte suspense de ação e parte um intrincado quebra-cabeça narrativo, o filme dirigido por Gavin O’Connor desafia as expectativas ao transformar um contador com autismo em uma espécie de justiceiro silencioso. A ideia pode parecer absurda em um primeiro momento, mas o longa a abraça com uma seriedade e precisão que tornam essa combinação improvável… eficaz.

Ben Affleck entrega aqui uma das performances mais marcantes de sua carreira. Seu Christian Wolff é contido, metódico e quase robótico, mas o ator encontra nuances suficientes para humanizar o personagem, mesmo que ele pareça emocionalmente desligado da maior parte do mundo ao seu redor. É curioso ver Affleck, que tantas vezes foi criticado por parecer “comum demais” para certos papéis, encontrar justamente nessa frieza calculada um espaço ideal para brilhar. Ele convence tanto nas cenas em que resolve equações complexas quanto nas que desarma (literalmente) uma sala cheia de capangas.

A estrutura do roteiro, escrito por Bill Dubuque, é ambiciosa. São várias linhas narrativas que se entrelaçam: a investigação do Departamento do Tesouro, flashbacks da infância de Wolff, a introdução de um segundo assassino em paralelo e a trama envolvendo a empresa Living Robotics. O que poderia facilmente desandar em um caos incoerente, funciona como um elaborado cubo mágico — aos poucos, cada peça se encaixa. O filme exige atenção, mas recompensa quem acompanha com dedicação.

Gavin O’Connor demonstra sensibilidade ao tratar a condição do protagonista sem transformá-lo em estereótipo. Apesar do risco de soar ofensivo, O Contador evita cair na armadilha de retratar o autismo como justificativa direta para a violência. Em vez disso, apresenta um personagem moldado tanto por sua neurodivergência quanto por um passado familiar extremamente duro — onde “adaptar-se ao mundo” foi sinônimo de sobrevivência, e não escolha. Essa abordagem dá à história uma camada extra de complexidade emocional.

Ainda assim, o filme não esquece de ser entretenimento. As cenas de ação são coreografadas com precisão quase matemática, refletindo a mente de seu protagonista. Os tiroteios são secos, eficientes, sem firulas — muito mais próximos de John Wick do que de um blockbuster tradicional. A trilha sonora e a fotografia também contribuem para o tom sóbrio e estilizado do filme, com tons metálicos e sombras carregadas que evocam a estética dos thrillers dos anos 1970.

O elenco de apoio também merece destaque. Anna Kendrick traz leveza e um certo charme necessário para equilibrar o estoicismo de Affleck, mesmo que sua personagem, Dana, funcione mais como uma faísca emocional do que como figura realmente ativa na trama. Já J.K. Simmons, sempre sólido, interpreta um investigador com mais camadas do que parece à primeira vista, enquanto Jon Bernthal injeta adrenalina como o misterioso Brax, oferecendo um contraponto interessante ao protagonista.

O Contador pode não ser um filme fácil de rotular, mas talvez esteja aí sua maior virtude. Ele flerta com o universo dos quadrinhos, sem abandonar o realismo cru de um drama policial; apresenta um herói que parece saído da trilogia Batman, de Christopher Nolan, mas com pé no chão e caneta na mão. É cerebral, ágil e inusitado — e prova que, às vezes, a equação perfeita do cinema está mesmo entre extremos improváveis.