Piratas do Caribe: No Fim do Mundo é um encerramento ambicioso para a trilogia iniciada em 2003, mas que se rende ao excesso em quase todos os aspectos. Com mais de duas horas e meia de duração, o longa exige paciência até entregar, no último ato, a aventura empolgante que se esperava desde os primeiros minutos. O problema é que, até lá, somos arrastados por uma maré de subtramas, traições e idas e vindas que mais confundem do que encantam.
Como conclusão de trilogia, Piratas do Caribe: No Fim do Mundo cumpre seu papel ao amarrar pontas soltas e dar destinos — por vezes definitivos, por vezes ambíguos — aos personagens principais. Mas a leveza e o senso de diversão presentes nos filmes anteriores se perdem aqui, substituídos por um tom mais solene, como se a franquia de repente tivesse decidido levar a si mesma a sério demais. Há momentos memoráveis, mas também longos trechos de pura exposição.

Boa parte da primeira metade é dedicada ao resgate de Jack Sparrow do baú de Davy Jones, o que inclui uma viagem ao “fim do mundo” e sequências psicodélicas com múltiplos Jacks e caranguejos que parecem pedras. Enquanto isso, Will, Elizabeth e Barbossa formam uma aliança tensa com o pirata chinês Sao Feng para chegar ao local onde Jack está preso. A narrativa se desdobra em muitas direções, e os personagens trocam de lado com tanta frequência que seria útil um placar para acompanhar quem está com quem.
O humor, marca registrada da série, aqui aparece em menor quantidade — e com menos inspiração. O próprio Jack, embora ainda interpretado com carisma por Johnny Depp, entra tardiamente na trama e passa menos tempo em cena, o que dilui seu impacto. Geoffrey Rush retorna como Barbossa, mas seu personagem, antes ameaçador, parece mais domesticado. Ao menos Will e Elizabeth, que vinham apagados no filme anterior, ganham mais espaço e complexidade — ainda que a química entre Knightley e Depp, que brilhou em Piratas do Caribe: O Baú da Morte, esteja ausente aqui.
Entre os vilões, ninguém chega a causar calafrios. Sem seu Kraken, Davy Jones vira apenas uma criatura digital bem animada digitalmente. Beckett, o verdadeiro antagonista, é articulado, mas nunca ameaça realmente Jack. A constante troca de alianças entre os personagens também enfraquece a força dos antagonistas, tornando difícil torcer ou se preocupar com alguém de fato.

O clímax, felizmente, resgata o espírito da franquia. Com tempestades, batalhas entre frotas inteiras, duelos em cordas e um casamento no meio da guerra, Piratas do Caribe: No Fim do Mundo entrega um espetáculo visual que recompensa a espera. Há espaço até para a participação de Keith Richards como o pai de Jack, e uma cena extra após os créditos que dá um desfecho melancólico a um dos arcos centrais da trilogia.
Apesar dos tropeços, o filme oferece a chance de reencontrar velhos amigos e se despedir (ao menos por enquanto) desses piratas tão carismáticos. O erro foi tentar fazer tudo maior, mais grandioso, mais épico — e esquecer que o encanto original estava no improviso, no caos e no charme inconsequente. Não é um naufrágio, mas está longe de ser a joia do baú.





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