O Terceiro Tiro faz Alfred Hitchcock encontrar humor onde normalmente haveria horror. Em uma floresta coberta pelas cores do outono de Vermont, o pequeno Arnie Rogers encontra o cadáver de Harry Worp e reage à descoberta com uma naturalidade que estabelece imediatamente o tom da história. Em vez de provocar pânico, investigação frenética ou sofrimento, aquele morto transforma-se em um inconveniente para os habitantes da região. Mais estranho ainda é que diferentes personagens possuem razões para acreditar que provocaram sua morte, embora nenhum deles demonstre culpa. Hitchcock parte de um assassinato em potencial para construir uma comédia macabra na qual o verdadeiro problema não é descobrir quem matou Harry, mas decidir o que fazer com seu corpo.
O capitão Albert Wiles, vivido com deliciosa serenidade por Edmund Gwenn, acredita inicialmente ter acertado Harry durante uma caçada e decide enterrá-lo antes que alguém descubra o acidente. Logo surgem outras possibilidades, e o cadáver passa a ser enterrado, desenterrado e transportado pela floresta com uma frequência cada vez mais absurda. Mildred Natwick acrescenta outra camada de humor como Miss Graveley, cuja tranquilidade diante da morte combina perfeitamente com a excentricidade do capitão. Hitchcock retira a solenidade do ato de esconder um cadáver: cavar uma sepultura torna-se praticamente uma atividade comunitária, interrompida por conversas cotidianas, encontros casuais e preocupações muito mais banais.

Shirley MacLaine, em sua estreia no cinema, é fundamental para essa atmosfera. Sua Jennifer Rogers identifica Harry como seu marido e recebe a notícia de sua morte quase como uma libertação, chegando a acreditar que também pode ter sido responsável pelo ocorrido. A interpretação de MacLaine evita transformar essa indiferença em crueldade; Jennifer simplesmente parece ter aceitado que algumas pessoas são mais agradáveis mortas do que vivas. Sua aproximação com o pintor Sam Marlowe, interpretado por John Forsythe, cria uma das duas histórias românticas que crescem ao redor do cadáver. Enquanto todos tentam solucionar o problema de Harry, novas relações começam com uma naturalidade que torna ainda mais divertida a convivência entre morte e desejo.
A grande graça do longa está justamente na recusa de Hitchcock em enfatizar as piadas. Os personagens discutem assassinato, ocultação de cadáver e possíveis responsabilidades criminais com a mesma tranquilidade com que conversariam sobre o clima. O humor nasce do contraste entre aquilo que está acontecendo e a absoluta normalidade com que todos reagem. Também existem insinuações sexuais surpreendentemente maliciosas escondidas sob diálogos aparentemente inocentes, especialmente envolvendo Miss Graveley. Em vez do suspense tradicional, Hitchcock trabalha com o desconforto provocado pela percepção de que aquelas pessoas simpáticas possuem uma relação bastante flexível com a morte.
Esteticamente, o filme também parece deliberadamente distante das atmosferas que normalmente associamos ao diretor. A fotografia de Robert Burks transforma Vermont em uma paisagem dominada por folhas douradas, vermelhas e alaranjadas, criando uma beleza quase idílica ao redor do cadáver. Essa oposição é essencial: quanto mais acolhedor parece o cenário, mais engraçada se torna a presença persistente de Harry. O filme marca ainda o início da colaboração de Hitchcock com Bernard Herrmann, cuja música acompanha o absurdo sem transformá-lo em farsa escancarada. A leveza da composição ajuda a preservar o equilíbrio peculiar entre o macabro e o cotidiano que sustenta toda a narrativa.

A estrutura episódica, porém, também impõe limitações. O mistério sobre a morte de Harry nunca pretende possuir a complexidade de outros filmes do diretor, e a ausência deliberada de tensão faz com que alguns trechos dependam quase inteiramente do encanto dos personagens e dos diálogos. O ritmo tranquilo pode parecer excessivamente discreto para quem espera uma trama policial mais convencional. Depois de Janela Indiscreta e Ladrão de Casaca, Hitchcock parece interessado justamente em frustrar essa expectativa, utilizando novamente um possível crime sem qualquer intenção de construir um verdadeiro thriller. Aqui, o cadáver é menos um enigma do que um objeto ao redor do qual uma pequena comunidade revela suas peculiaridades.
O Terceiro Tiro permanece uma das experiências mais singulares da filmografia de Hitchcock justamente porque transforma a morte em motivo para uma comédia estranhamente afetuosa. Há algo deliciosamente subversivo em acompanhar pessoas comuns preocupadas em esconder um corpo enquanto se apaixonam, tomam café e discutem seus pequenos desejos como se nada extraordinário estivesse acontecendo. O filme talvez não possua a intensidade ou a precisão narrativa das grandes obras do diretor, mas demonstra outro aspecto de seu fascínio pelo crime: a possibilidade de rir daquilo que normalmente deveria nos assustar. Harry passa toda a história morto, mas poucas vezes um cadáver trabalhou tanto para manter uma comédia viva.







