Os Farofeiros

(2018) ‧ 1h43

Os Farofeiros e a comédia que confunde exagero com humor

Felipe Fornari

Existe uma diferença importante entre uma comédia popular que abraça o absurdo e uma produção que parece acreditar que seu público não precisa de nada além de piadas fáceis para se divertir. Os Farofeiros, dirigido por Roberto Santucci, aposta na segunda possibilidade ao acompanhar quatro colegas de trabalho que planejam passar o feriado em uma casa de praia, mas descobrem que a viagem dos sonhos se transformou em um pesadelo. A premissa oferece inúmeras oportunidades para explorar os pequenos constrangimentos das férias em família, as diferenças sociais e os comportamentos que surgem quando a convivência se torna inevitável. O problema é que o filme parece satisfeito em reconhecer essas situações sem encontrar uma maneira interessante de desenvolvê-las.

A confusão começa quando os personagens descobrem que o destino não corresponde ao prometido e que a casa alugada está longe das condições anunciadas. A partir daí, a narrativa acumula problemas domésticos, desentendimentos e situações constrangedoras, apostando no exagero como principal recurso cômico. O humor físico e as reações desproporcionais poderiam funcionar dentro de uma proposta assumidamente pastelão, mas a repetição logo revela a falta de inventividade do roteiro. Em vez de construir uma sequência de situações que se intensificam de maneira orgânica, o filme parece recorrer continuamente aos mesmos mecanismos, como se o simples reconhecimento de um estereótipo fosse suficiente para produzir uma piada.

Essa limitação fica ainda mais evidente na construção dos personagens. As três famílias e o colega solteiro são apresentados por meio de características bastante definidas, mas raramente recebem desenvolvimento que permita ultrapassar essas primeiras impressões. O conflito profissional envolvendo Alexandre, que está prestes a ser promovido e precisa decidir qual dos colegas será demitido, oferece uma possibilidade de tensão que poderia influenciar a convivência durante a viagem. Entretanto, a questão se arrasta sem produzir mudanças significativas nas relações, e os personagens acabam repetindo comportamentos semelhantes até que a narrativa decide encaminhá-los para uma conclusão supostamente transformadora. Falta à comédia compreender que uma jornada de amadurecimento exige mais do que apresentar personagens problemáticos e, depois, sugerir que aprenderam alguma coisa.

O tratamento dado às relações afetivas e à sexualidade também compromete o resultado. A insistência em mostrar homens e mulheres reagindo de maneira exagerada à aparência física uns dos outros reduz as interações a uma coleção de olhares, insinuações e constrangimentos que raramente acrescentam algo à história. Mais problemático é o modo como o filme tenta abordar o machismo sem conseguir se afastar dos próprios mecanismos que o reproduzem. Personagens masculinos são apresentados como excessivamente possessivos ou incapazes de controlar seus desejos, mas a narrativa nem sempre questiona essas atitudes com a clareza necessária. Em alguns momentos, a intenção de ridicularizar comportamentos preconceituosos se perde porque a própria encenação parece depender deles para sustentar o humor.

Há, ocasionalmente, situações que demonstram algum potencial cômico, sobretudo quando o filme encontra graça nas dificuldades concretas da convivência. O desconforto de compartilhar uma casa inadequada, a falta de privacidade e os pequenos desastres de uma viagem mal planejada são experiências facilmente reconhecíveis, capazes de aproximar a comédia do cotidiano do público. Entretanto, essas observações acabam soterradas por exageros que pouco contribuem para a construção das cenas. O uso de efeitos visuais em uma sequência envolvendo mosquitos, por exemplo, destoa da linguagem adotada pelo restante da produção e transforma uma situação que já poderia ser engraçada por si só em um recurso artificial e desnecessário. A narração infantil que acompanha a história tampouco encontra uma função clara, parecendo mais um artifício acrescentado sem uma justificativa narrativa convincente.

O elenco acompanha essa irregularidade, mas a maior parte das interpretações parece presa à necessidade de enfatizar continuamente as características mais caricatas de cada personagem. Antônio Fragoso, Danielle Winits e Maurício Manfrini participam de um conjunto no qual a intensidade das reações frequentemente substitui a construção de uma comicidade mais natural. Em vez de permitir que as situações produzam o riso, o filme parece insistir em sinalizar quando o espectador deveria achar algo engraçado, seja por meio das interpretações exageradas, seja pela utilização de efeitos sonoros que sublinham as piadas. Essa falta de confiança no próprio material torna a experiência cansativa e contribui para que mesmo momentos potencialmente divertidos sejam acompanhados de um desconforto que não parece inteiramente intencional.

No fim, Os Farofeiros representa uma visão bastante limitada da comédia popular, não por recorrer ao pastelão ou a situações absurdas, mas por tratar esses recursos como substitutos para a criatividade e o desenvolvimento narrativo. O filme parece confiar excessivamente em estereótipos sociais, sexualização e repetição, enquanto suas tentativas de oferecer alguma reflexão sobre comportamento e convivência são prejudicadas pela falta de coerência. O resultado é uma produção que pode provocar risadas pontuais, mas raramente encontra nelas algo que sustente a experiência para além do instante. O humor popular não precisa ser sofisticado para funcionar, mas também não deveria servir de desculpa para subestimar o público. Aqui, a sensação predominante é a de uma comédia que confunde quantidade de piadas com eficácia e termina tão desgastada quanto as férias que pretende retratar.

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