Os Malditos

Onde assistir
“Os Malditos”: A guerra como campo de silêncios, dilemas e feridas invisíveis

Os Malditos, filme do diretor italiano-americano, Roberto Minervini, vencedor do prêmio de melhor direção da seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes, apresenta uma abordagem inovadora e particular sobre as produções que versam sobre a temática da guerra. Nessa produção, com características quase documentais, a perspectiva apresentada vai enfatizar o campo das relações humanas, das angústias e dos conflitos, que não são propriamente de natureza bélica, mas que envolvem um componente mais complexo e de rara compreensão, a natureza dos conflitos internos e psicológicos dos combatentes.

No rigoroso inverno de 1862, durante a Guerra Civil (1861-1865), o exército dos Estados Unidos passa a enviar tropas de soldados voluntários para o oeste, como o propósito de identificar regiões que até então, não haviam sido conquistadas, com intenções exploratórias e de povoamento. No entanto, a missão de conquista, vai perdendo o seu propósito inicial, pois os soldados precisam lutar contra os supostos inimigos, com o objetivo de preservar suas vidas. É nesse momento de reconfiguração e ruptura com os propósitos iniciais da missão, faz com que os voluntários passem a refletir sobre o real significado dos seus esforços e a natureza dos propósitos que os guiam.

A fotografia de Carlos Alfonso Corral, em várias sequências, desfoca o fundo, com o propósito de dar um destaque total e absoluto no que está em foco, o take nas expressões e olhares dos soldados voluntários, nas ações meticulosas e nos detalhes com relação ao manuseio das armas. O que se pretende, é a busca pelo significado daquela experiência individual e coletiva, que é passada de pai para filho, entre gerações, deixando clara a mensagem da importância das cenas em plano sequência, para a construção de um significado que impacta mais ainda no filme, o desvelar das dores e dos dilemas pessoais dos voluntários, que estão abandonados à própria sorte.

O plano sequência sobre as condições do acampamento, a rotina, o tédio uma temperatura extrema, pode parecer excessivamente longo e nos causar certo desconforto, porém esse é o propósito da cena, nos evidenciar o abuso da guerra para o aniquilamento das subjetividades.

Um aspecto interessante na abordagem do diretor é sobre o papel da religião, que passa a ser reconhecida como o último recurso, uma espécie de tábua de salvação para os personagens, submetidos a condições cada vez mais extenuantes e que testam sua capacidade e os limites físicos e emocionais, ampliando a sensação de vazio, frustração e incompletude, diante de um conflito que em última análise, é contra pessoas boas.

Os personagens não tem nome, não há registro, são reconhecidos como soldados jovens e soldados velhos. A ausência de identidade, acaba destacando suas crenças e valores, que no caso, estão umbilicalmente associados a religiosidade. “Deus não está aqui, não faço nada a serviço dele nessa guerra”, se questiona um dos soldados, diante da morte e do horror.

Além da religião, outro aspecto que sobressai, é a relação dos soldados com o governo, que em um dado momento, passam a confundi-lo como se fosse uma espécie de santo no altar de quem não se espera milagres ou redenção, que no caso, passa a significar a justificativa da própria guerra. Aqui reside o dilema ético central dos personagens, pois se existe um tempo determinado para nascer e morrer, e esse tempo é definido pelo Deus da guerra, o governo deve ser respeitado, sem questionamentos, de forma resiliente e obediente, mesmo diante da violência e do desespero injustificado?

Você também pode gostar...