Talvez a primeira coisa que você precisa saber sobre Ovnis, Monstros e Utopias é que, sim, talvez seja necessário se conectar com outros planetas, ou ao menos desligar-se um pouco da lógica terráquea para conseguir acompanhar a proposta. O longa reúne três histórias queer com uma narrativa que parece ter saído diretamente de um sonho ligeiramente entorpecido. Ou de uma oficina experimental de cinema em que o roteiro ficou perdido no caminho.

A intenção é boa: mostrar diferentes experiências queer entre jovens portugueses. E o que realmente vale a pena aqui é esse retrato da juventude lusitana, com seus trejeitos, gírias e existencialismos leves, que acaba funcionando como um registro quase etnográfico. Porque, sejamos sinceros, em termos de desenvolvimento narrativo, o filme deixa um pouco (ou muito) a desejar.
Na primeira história, Entre a Luz e o Nada, dirigida por Joana de Sousa, um grupo de jovens vive… alguma coisa. E aí acaba. Literalmente. Sob Influência, sob a direção de Ricardo Branco, tenta ir por um caminho (talvez) mais denso: três amigos vão passar o fim de semana no casarão do pai de um deles, e uma das amigas começa a ver coisas que os outros não veem. Talvez espíritos. Talvez metáforas. Talvez o tédio tomando forma. Há tensão, sim, mas longe de se construir algum clímax. Por fim, Uma Rapariga Imaterial, dirigido por André Godinho, traz um jovem que está claramente mal resolvido com o atual ou ex. Durante uma viagem, o jovem desconsolado encontra uma figura misteriosa que representa a liberdade, ou talvez um delírio. Aqui, sonho e realidade se embaralham, e o espectador é convidado a aceitar que talvez não haja diferença entre os dois. Ou que tanto faz.

Apesar da classificação etária ser para maiores de 16 anos, Ovnis, Monstros e Utopias se desenvolve com muito pudor, é bem econômico nas cenas mais explícitas. Sensualidade? Só se você considerar caminhar pela mata uma cena quente.
Ovnis, Monstros e Utopias tenta ser sensível, poético, misterioso… e, de fato, é tudo isso. Pode ser uma viagem interessante, desde que você não espere chegar a lugar nenhum.







