Papaya

(2025) ‧ 1h14

20.10.2025

"Papaya": A semente que sonhou em voar

Papaya é uma animação encantadora que cresce diante dos olhos do espectador como uma fábula visual sobre liberdade, pertencimento e transformação. A diretora Priscilla Kellen cria um universo que, embora nasça do pequeno — uma simples semente de mamão —, alcança dimensões grandiosas ao refletir temas como identidade e meio ambiente com delicadeza e poesia.

Sem diálogos, o filme aposta na força das imagens e dos sons para construir uma experiência sensorial única. A ausência de palavras convida o público a observar, sentir e interpretar, tornando cada gesto da pequena protagonista um ato de descoberta. A direção de arte é vibrante, misturando colagens, texturas e cores que evocam tanto a natureza tropical quanto uma estética artesanal de rara beleza.

O traço de Kellen, supervisionado por Alê Abreu (O Menino e o Mundo), ecoa a tradição da animação autoral brasileira, mas com um frescor próprio. A diretora constrói um mundo em que cada folha, cada som e cada cor têm propósito, e a jornada de Papaya — que recusa a imobilidade e sonha em voar — espelha o desejo universal de romper fronteiras e viver sem amarras. É uma metáfora potente sobre a necessidade de movimento, mesmo em tempos de enraizamento forçado.

Ainda que sua proposta seja simples, Papaya não subestima o público infantil. Ao contrário, oferece uma narrativa aberta, que respeita a inteligência e a sensibilidade das crianças, ao mesmo tempo em que emociona adultos. Há uma crítica ambiental sutil, mas incisiva, sobre o impacto humano na natureza e sobre o ciclo da vida que insiste em se reinventar.

A trilha sonora, assinada por Talita Del Collado e com participação da cantora Tulipa Ruiz, é um dos pontos altos da experiência. As canções e os sons da floresta formam um abraço sonoro que conduz o espectador com doçura, reforçando a atmosfera onírica e o sentimento de encantamento que atravessa todo o filme.

Mesmo com um ou outro momento em que o ritmo parece desacelerar além da conta, a força poética das imagens compensa. O resultado é uma produção que se mantém viva em cada detalhe, convidando à contemplação e à empatia com o mundo natural.

Ao final, Papaya se revela uma animação de alma livre — uma pequena grande história sobre crescer sem perder o sonho de voar. É um lembrete terno de que a beleza pode nascer do menor dos gestos, e que, às vezes, basta acreditar para florescer.

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AUTOR

Felipe Fornari

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