Para Minha Amada Morta

31.03.2016 │ 11:14

31.03.2016 │ 11:14

Em Para Minha Amada Morta, estreia em longa-metragem do cineasta Aly Muritiba, a obsessão e o sentimento de vingança são os dispositivos para um drama com elementos de thriller. O resultado é um filme tenso, construído com minuciosos elementos imagéticos, de cena e atuação, abrindo espaço para um cinema sem gênero específico mas certeiro quando se trata da relação entre tela e espectador.
Fernando é um advogado que trabalha como fotógrafo forense na polícia. Seu relacionamento com a morte de desconhecidos é quase que banal, sempre executando seu trabalho de maneira profissional. Ao perder a esposa – a amada morta, aqui sem nome – ele lida com as lembranças cotidianas deixadas por ela. Junto com o filho pequeno, ele coloca os calçados da falecida para tomar sol, tira as roupas do armário e revira o passado vendo fotos e assistindo fitas VHS. Em uma dessas fitas sem nome, Fernando encontra uma gravação caseira da mulher em um hotel barato com outro homem. A frase Você é a melhor coisa que me aconteceu na vida se entranha em Fernando, causando um sentimento misto de raiva e curiosidade para entender quem é esse homem e como ele acaba de por fim às lembranças relacionadas à sua amada.
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A busca obsessiva do protagonista – apesar da amada morta ser a figura mais presente do filme, mesmo que simbólica – é o que tira ele da letargia do luto. Ao sair em busca do hotel do vídeo, do rosto do amante e ao adentrar na vida desse outro, Fernando passa a desconstruir a falta da mulher e também o sentido de vingança e traição. Se é costumeiro saber o que um personagem vingativo é capaz de fazer em um filme de suspense, em Para Minha Amada Morta isso não é levado em conta. Flertando mais com um cinema do leste europeu, o longa prefere construir os personagens como seres humanos através dos seus sentimentos do que criar pequenos monstros que usam eles como desculpa.
O olhar de fotógrafo na câmera em Para Minha Amada Morta é fundamental, assim como a direção de atores. Fernando Alves Pinto (ótimo em Terra Estrangeira, de Walter Salles) faz com que a atuação seja como uma bomba relógio, fazendo com que o espectador não saiba se o personagem vai implodir ou explodir a qualquer momento. É a câmera, em planos fechados, que conduz essa tensão, assim como o silêncio do personagem sempre muito performático em suas expressões faciais e de corpo. Destaque ainda para o coadjuvante Lourinelson Vladmir como Salvador (nome de força simbólica), que assim como o protagonista é ora contido, ora explosivo e lida com a dualidade humana que seu personagem oferece. A jovem Giuly Biancato também é uma ótima surpresa, surgindo quase como um elemento catalisador em vários pontos da narrativa.
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O uso, em vários momentos, de plano-sequência deixa o espectador frente a frente com os sentimentos mais latentes dos personagens, sendo – como o próprio diretor afirma – que seria impossível dar a profundidade da tensão sem a técnica que segura todo o clímax da narrativa. A forma em que os elementos de cena são utilizados é bastante significativo, reafirmando que a direção e fotografia trabalharam em sintonia.
Apesar do clima tenso, Para Minha Amada Morta em nenhum momento cai em lugar comum ou parte para o exagero. O espectador se defronta com uma diversidade de sentimentos sem precisar que eles tenham que vir de dispositivos apenas calcados no realismo. Aqui, Muritiba usa do cinema e das suas ferramentas para que a experiência seja máxima. Uma sensível cena que transcorre na retina do personagem – da gravação que abala a certeza do seu luto – é uma mensagem ao espectador atento, o cinema é capaz de mudar suas certezas, se embrenhando pela retina e causando uma variedade de sentidos.
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Para Minha Amada Morta se aproxima de um estilo que Trabalhar Cansa (2011), de Juliana Rojas e Marco Dutra, começou a propor na época com elementos de thriller, mas se desenvolve de forma diferente, optando por um clímax mais voltado no desenvolvimento dos personagens e suas trajetórias. O longa – já premiado em festivais mundiais e o Troféu Candango de melhor direção de 2015 – vem engrossar o coro de que o cinema brasileiro vai muito bem, dentro e fora do circuito comercial.
Nota:

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