Photochart: Nascido para Vencer

(2026) ‧ 1h10

Um campeão maior do que o retrato

Felipe Fornari

Há uma dimensão quase inacreditável nos números que acompanham Jorge Ricardo. Mais de 13 mil vitórias, décadas competindo em alto nível e uma carreira que atravessou fronteiras seriam suficientes para transformar qualquer atleta em personagem de cinema. Photochart: Nascido para Vencer parte justamente dessa trajetória excepcional para apresentar ao público um nome que, apesar de gigantesco dentro do turfe, talvez permaneça desconhecido para muitos brasileiros. Wagner de Assis e Luis Erlanger encontram um protagonista fascinante, mas o documentário nem sempre consegue transformar a grandeza de sua história em uma narrativa igualmente envolvente.

O caminho escolhido é bastante tradicional. Depoimentos de familiares, jornalistas e personagens ligados ao turfe conduzem uma retrospectiva que retorna à infância de Jorge Ricardo e à influência decisiva do pai, Antônio Ricardo, também jóquei e responsável por introduzi-lo naquele universo. Existe algo interessante nessa ideia de uma vocação praticamente transmitida entre gerações, sobretudo porque o filme procura compreender como disciplina, talento e convivência familiar ajudaram a formar um competidor tão obstinado. São elementos capazes de aproximar o homem do recordista, ainda que frequentemente apresentados de maneira mais celebratória do que investigativa.

Quando entra nas pistas, Photochart ganha outra energia. As imagens das corridas ajudam a dimensionar uma modalidade que exige estratégia, coragem e uma impressionante sintonia entre jóquei e cavalo. Para quem conhece pouco sobre o turfe, o documentário tem o mérito de abrir uma porta para esse universo e mostrar a relevância que ele já alcançou no cenário esportivo brasileiro. A trajetória internacional de Ricardo, especialmente sua passagem pela Argentina, também amplia a percepção de sua importância: não estamos apenas diante de um campeão nacional, mas de alguém que construiu reconhecimento muito além das fronteiras do país.

Entre os episódios recuperados, a rivalidade com Juvenal Machado da Silva é um daqueles momentos em que percebemos o filme que poderia existir dentro do próprio documentário. As disputas entre os dois transformavam as provas do Hipódromo da Gávea em acontecimentos esportivos, com torcida, expectativa e uma rivalidade comparável àquelas que ajudam a popularizar qualquer modalidade. É uma história cheia de possibilidades dramáticas e que revela um período particularmente interessante do turfe nacional. Justamente por isso, fica a sensação de que o longa poderia permanecer mais tempo nesses conflitos e personagens, explorando melhor aquilo que existe para além da sucessão de conquistas.

Essa é também sua principal limitação. Wagner de Assis e Luis Erlanger demonstram tamanha admiração pelo personagem que raramente se afastam o suficiente para observá-lo por outros ângulos. Obstáculos importantes aparecem, assim como momentos delicados da vida e da carreira, mas quase sempre subordinados à construção de uma narrativa sobre superação. O resultado se aproxima em determinados momentos de uma homenagem institucional, interessada sobretudo em reafirmar a excepcionalidade de Jorge Ricardo. Não há problema em celebrar um atleta dessa dimensão, mas um documentário pode se tornar ainda mais interessante quando permite que contradições, derrotas e dúvidas ocupem o mesmo espaço reservado aos recordes.

A histórica vitória de número 13.000, alcançada em 2020, oferece ao filme um ponto de chegada naturalmente poderoso. Depois de acompanhar décadas de dedicação, compreender o peso daquele número torna a conquista ainda mais impressionante. Mais significativo, porém, é perceber a longevidade de um atleta que permanece ligado às pistas quando tantos contemporâneos já encerraram suas carreiras. Nesses momentos, Photochart encontra algo que números e troféus sozinhos não conseguem explicar: a relação de Ricardo com o esporte parece ultrapassar a necessidade de continuar provando qualquer coisa.

Jorge Ricardo merecia ter sua história registrada, e Photochart: Nascido para Vencer cumpre essa tarefa com respeito e evidente admiração, além de funcionar como uma introdução acessível a um universo pouco explorado pelo cinema brasileiro. O problema é que seu protagonista frequentemente parece maior e mais complexo do que o próprio filme consegue alcançar. Há uma carreira extraordinária, rivalidades, conquistas internacionais, adversidades e décadas de transformação do esporte esperando por um olhar mais profundo. O documentário preserva a memória de um campeão e provavelmente despertará curiosidade pelo turfe, mas termina deixando a impressão de que, diante de uma vida tão rica, havia uma corrida cinematográfica ainda mais interessante a ser disputada.

ONDE ASSISTIR

OUTRAS CRÍTICAS