Presença

Onde assistir
Habitantes dos cantos escuros da terra, sejam todos muito bem-vindos a mais uma crítica de presença, aqui, no Quadro por Quadro

“Uma família precisa mudar de ares, e encontra em uma linda casa do subúrbio, o seu novo refúgio para recomeçar a vida, eles só não contavam com a presença de um outro inquilino”.

Olá, sejam bem-vindos a esta linda casa, confortável, receptiva e perfeita para viver ótimos momentos, tudo o que uma família precisa. Me chamo Pedro Vitor, o seu corretor imobiliário, e irei conduzi-los, apresentando cada cômodo. E um detalhe, essa propriedade não está listada ainda, e vocês são os primeiros a conhecer ela.

Como vocês puderam notar e já estão familiarizados com o hall de entrada, temos a proposta inicial de ser um filme simples, pequeno, e uma história já contada a exaustão, em que uma família buscando por um recomeço, se muda para uma nova casa, e que nela, mesmo aparentemente sendo acima de qualquer suspeita, com o tempo, coisas absurdas e fora do comum começam a acontecer. No entanto, como vocês podem notar, os ambientes são bastante amplos, a madeira muito bem conservada, e o detalhe aqui, e que faz toda a diferença, é de que o ponto de vista é da “presença” que ocupa a residência, ou seja, só vemos e ouvimos o que a entidade tem interesse, e isso é muito legal, já que ao mesmo tempo que traz um toque de inovação, também serve como elemento narrativo em que informações e detalhes podem passar batido, já que a entidade não estava presente, portanto, se ela não sabe, nós também não temos como saber logo de cara.

A cozinha é muitas vezes chamada de “o coração da casa”, e não é pra menos, olha só essa bancada que amorzinho, não é mesmo? Mas aqui, podemos chamar ela de “cérebro da casa”, digamos assim, já que muitas vezes temos uma boa ideia de como a personalidade e psicológico dos personagens realmente são.

Seguindo ainda pelo pavimento térreo, temos aqui este espelho centenário, e um amplo cômodo para diversos ambientes, ótimo para jantares, reuniões descontraídas, uma boa e séria conversa, ou até mesmo, uma sessão mediúnica quem sabe, explorando assim um pouco do “lore” sobrenatural, bastante específico deste filme.

Essa magnífica e resistente escada leva aos dormitórios, três quartos, sendo duas suítes para seu conforto e comodidade, contando com um espaçoso closet incluso, com tamanho o suficiente para caber todas as suas roupas, artigos esportivos, uma alma penada que irá lhe observar em seus momentos mais íntimos, e seus calçados também.

Chegamos ao final do nosso tour, espero que tenham gostado, e torço muito para que sejam os novos moradores, e fiquem aqui, PARA SEMPRE!

Brincadeiras à parte, vamos então, as minhas considerações sobre o longa.

Presença é um drama sobrenatural, com notas de suspense psicológico, – ou como parte da crítica gosta de chamar, um “Terror Elevado” – dirigido pelo aclamado diretor Steven Soderbergh, escrito pelo prolífico roteirista David Koepp, e que é bem competente naquilo que se propõe a fazer, uma obra sob o ponto de vista da entidade que vive na casa “assombrada”.

Porém, ele não é o que parece, e possivelmente o marketing do filme deve estar conduzindo o público de maneira errônea, já que o foco em Presença não é necessariamente o do Terror convencional, repleto de sustos, agoniante, ou elementos essencialmente malígnos, e sim, em um particular suspense familiar vivido no seio de uma vida privada. Um drama levemente fantasioso, em que é possível enxergarmos nós mesmos em personagens, arquétipos, personas, e momentos, mas, com um papel de parede inspirado no horror sobrenatural, já que as informações que observamos são proporcionadas apenas pela entidade ficcional que perambula pela residência.

E para além do drama, que não é profundo demais, mas também não é superficial ao ponto de ser descartável ou subutilizado, e sim palatável, temos o elemento sobrenatural que é central, que ajuda explorar e desenvolver a dramaticidade, e apresenta conceitos interessantes de tempo e espaço, de esterilidade de não ser bom ou ruim, – ou ambivalência talvez – e de certa maneira consegue entregar um terror mais ameno e conceitual a um público longe de ser “hardcore”, e que gostaria de ter uma experiência mais leve e tranquila.

Lucy Liu – atriz mais conhecida da produção – entrega com excelência a sua personagem, uma mãe que tem dificuldade em se conectar e ser amável com sua “filha problemática”, que dá muito mais atenção ao seu “filho perfeito”, sendo também uma esposa afastada, digamos assim. Uma personagem que possui uma característica mais dominante, dirigida ao trabalho e ao dinheiro.

Chris Sullivan proporciona um pai adulto e responsável, que dialoga muito bem com seus filhos, apesar de dar mais preferência e atenção a sua filha do que ao filho, e que sofre internamente com o desenvolvimento da personalidade do filho, com a saúde psicológica de sua filha, e com as escolhas que sua esposa faz dentro e fora do trabalho.

A “Presença! que já habita a casa, é uma incógnita até os momentos finais da obra, e isso a torna bastante interessante, já que não é óbvia, e tem o trunfo de ser “narradora” da história.

Os filhos são adolescentes em que ao mesmo tempo que são comuns, também são distintos entre si, deixando bem claro, desde o início, as suas personalidades, interesses e conflitos.

A fotografia e direção de arte também merecem suas menções por aqui, já que mesclam a todo o instante, – tanto para quem está dentro quanto fora da tela – elementos do passado e do presente, estética distintas, o novo e o antigo, o interessante visualmente com o simples e entediante, o vintage e o moderno.

Existem pontos que eu gostaria que fossem melhores, porém, eu entendo que pela limitação de orçamento, assim como pela decisão criativa de pautar a história pelas lentes da “Entidade”, a obra possui suas limitações que realmente criam impedimentos.

Sendo assim, dentro da proposta e daquilo que o filme realmente é, eu percebo que ele se saiu muito bem, entregando um entretenimento reflexivo e de boa qualidade. Recebendo uma nota 4 de 5.

Faça como o Quadro por Quadro e assista Presença nos cinemas!

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