The Last of Us – 2ª Temporada

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"The Last of Us": Quando a vingança perde o impacto

A segunda temporada de The Last of Us chegou ao fim deixando nos fãs uma sensação agridoce. Após uma estreia aclamada, que conquistou o público com sua fidelidade ao jogo original e sua carga emocional intensa, a nova fase da série tropeça em suas próprias ambições e entrega uma narrativa fragmentada, marcada por escolhas questionáveis. A pergunta que paira sobre muitos episódios é: por quê?

É inevitável comparar com The Last of Us Part II, o jogo. Não apenas um dos títulos mais marcantes dos videogames, ele também é considerado uma das maiores obras audiovisuais já feitas. A maneira como lida com temas como vingança, empatia e o ciclo da violência, com profundidade e precisão, ainda impressiona. Infelizmente, a adaptação televisiva não alcança esse mesmo impacto — nem de longe.

A tentativa de reorganizar a cronologia dos eventos e reestruturar o enredo acabou atrapalhando mais do que ajudando. Muitas cenas cruciais foram comprimidas ou completamente ignoradas, o que enfraquece a tensão narrativa e dilui o impacto emocional. O desenvolvimento de personagens, especialmente de Abby, é apressado e raso.

O grande ponto de virada do segundo jogo — a revelação de que Joel matou o pai de Abby no fim do primeiro jogo — é entregue logo na primeira cena, sem qualquer preparação ou carga dramática. No jogo, esse momento altera completamente a perspectiva do jogador e provoca uma forte reflexão moral e o início da empatia pela personagem da Abby. Já na série, parece apenas mais uma informação jogada, sem construção e sem peso emocional.

A estrutura narrativa também sofre com desequilíbrios. Alguns episódios funcionam como fillers, enquanto outros aceleram momentos cruciais, comprometendo a construção de tensão e a jornada emocional que, no jogo, é conduzida com maestria. A cada novo episódio, cenas memoráveis eram deixadas de fora ou tratadas de forma superficial.

Um exemplo claro disso é a cena da morte de Nora por Ellie no hospital dos Vagalumes. No jogo, esse é o ponto em que Ellie mergulha definitivamente em sua sede de vingança, marcando uma virada emocional irreversível. Na série, no entanto, esse impacto se perde. A personagem retorna do hospital como se nada tivesse acontecido, apenas evitando falar do assunto, e a brutalidade do momento passa quase despercebida — retirando profundidade e urgência da sua motivação.

Outro ponto que incomoda é a forma como Ellie foi retratada. Bella Ramsey é uma atriz extremamente talentosa, mas sua personagem parece mal dirigida e mal escrita. A Ellie da TV frequentemente assume o papel de coadjuvante: está quase sempre acompanhada de outros personagens, precisa ser resgatada em situações perigosas e raramente toma decisões que guiem sua própria jornada de vingança — algo que, no jogo, é central e muito claro. Sua fúria, que deveria ser o motor da narrativa, é apagada, e isso compromete o envolvimento emocional do espectador.

Além disso, chama atenção a quase total ausência de infectados. Para uma história ambientada em um mundo devastado por uma pandemia fúngica, o papel dessas criaturas deveria ser mais presente e ameaçador. Nesta temporada, com exceção do segundo episódio — que apresenta de forma brilhante uma invasão a Jackson — e da cena no metrô no quarto episódio, os infectados praticamente desaparecem da trama. Os confrontos com infectados são esporádicos, deixando de lado uma das principais fontes de tensão do universo de The Last of Us. Essa escolha não apenas enfraquece o senso de perigo constante, como também contribui para uma ambientação menos imersiva e menos fiel ao espírito do jogo.

Ainda assim, a temporada tem seus méritos. A produção mantém um alto nível técnico: a cinematografia continua belíssima, e a trilha sonora é envolvente, potencializando os momentos mais sensíveis. As atuações, no geral, são sólidas — com destaque para Isabela Merced, que entrega carisma e presença em todas as cenas em que aparece, muitas vezes roubando o protagonismo inexistente de Ellie. E, claro, Pedro Pascal: mesmo com uma participação breve nesta temporada, ele retoma o papel de Joel com eficiência e profundidade, deixando uma presença marcante que certamente faz falta ao longo dos episódios.

A segunda temporada da série tentou se afastar da estrutura narrativa do jogo — o que, em teoria, é compreensível, considerando as diferenças entre mídias. No entanto, as escolhas feitas ao longo da temporada parecem, em sua maioria, equivocadas. Apesar da excelência técnica, a falta de foco e a desconexão emocional prejudicam a experiência como um todo. A sensação é de que a série não soube equilibrar fidelidade com inovação — e acabou não fazendo bem nem uma coisa, nem outra.

No fim das contas, The Last of Us ainda brilha com mais força onde nasceu: nos videogames. O jogo permanece como uma das narrativas mais poderosas já criadas. Já a adaptação televisiva precisa reencontrar o tom. Fica a esperança de que a terceira temporada recupere o cuidado, a sutileza e o impacto emocional que tornaram a primeira temporada um verdadeiro marco.

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