Todas as Estradas de Terra têm Gosto de Sal

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15.11.2024

“Todas as Estradas de Terra têm Gosto de Sal” aposta na habilidade do corpo em comunicar e traz uma história que deposita sentido nas próprias memórias de quem assiste.

Em uma entrevista ao site Le Cinéma Club, a diretora estadunidense Raven Jackson afirma que “confia na habilidade do corpo em comunicar sem palavras”. Talvez, só isso pudesse ser dito em nome de Todas as Estradas de Terra têm Gosto de Sal, estreia dela na direção de longa-metragens. É como se Jackson orquestrasse o tempo manipulando a câmera e dirigindo atrizes e personagens como portadoras de fragmentos. Se aceitamos isso, fluímos com o filme.

Qual é a sua primeira lembrança? Um sabor, a textura de uma mão, o cheiro de um cabelo, o padrão de tecido de algum colo que você sentou. A memória não é linear, é feita de cenas que surgem até quando estamos andando na rua com pressa. Muitas dessas cenas são compostas apenas de um pedaço de enquadramento e o silêncio. Apostando nessa complexidade – e juntando a outras como, por exemplo, nossa relação com a natureza, as luzes e os espaços –, Todas as Estradas de Terra têm Gosto de Sal elabora um poema visual partindo de Mackenzie  (Kaylee Nicole Johnson, Charleen McClure e Zainab Jah), desde a infância, no Mississipi da década de 1970, até quando sua memória passa a desvanecer na velhice.

Não conhecemos a linearidade da vida de Mack, mas descobrimos detalhes suficientes para criarmos nossos próprios laços emocionais com ela. Como em um livro de Toni Morrison (escritora estadunidense e nobel de literatura), a fabulação está posta diante dos nossos olhos e temos que seguir o ritmo da narrativa confiando na proposta. Raven Jackson parte de fotografias e histórias da família no sul dos Estados Unidos para criar uma enredo particular de relações familiares que também são físicas e por isso mesmo, históricas. Desde a cena que abre o filme, de um pai (Chris Chalk) pescando e ensinando a filha pequena a aceitar que o peixe deve morrer, a mãe (Sheila Atim) se maquiando e dançando com o pai –  cenas que só a nossa memória infantil pode recorrer –, até dolorosas e curtas conversas entre irmãs e amores pouco possíveis. Quando Mackenzie surge idosa na nossa frente, sentimos a tranquilidade da intimidade pois passamos mais de uma hora e meia olhando para ela e a textura das peles de seus afetos em abraços e fragmentos de diálogos.

Outro ponto forte, que colabora para nossa construção enquanto espectadoras, é o entrelaçamento dessa história com os ambientes naturais do sul rural que, por sua vez, guardam memórias ancestrais daqueles que foram violentamente obrigados a atravessar o Atlântico. Porém, em Todas as Estradas de Terra têm Gosto de Sal o sul dos Estados Unidos já é um território de ancestralidade para a geração de Mackenzie. O título do filme vem de uma cena em que as mulheres da família cavam encostas de barro em busca de pepitas para comer. A mãe de Mack e Josie (Moses Ingram) apenas assinala que essa é uma atividade que as une por gerações e não é necessário dizer que isso vem do além-mar. Esse tipo de ação faz eco, ou rimas (se pensarmos na estrutura poética), com as formas que os relacionamentos vão se construindo ao longo do tempo, inclusive pela via dos lutos que os marcam.

Antes de se colocar como realizadora, Raven Jackson diz ser poeta e fotógrafa. Ambas as atividades exigem atenção e escuta, assim como um bom trabalho de montagem. Aqui ela trabalha com Lee Chatametikool – conhecido pela parceria com o tailandês Apichatpong Weerasethakul –, e parece que juntos, com cinematografia, direção de arte etc., compõem uma poética própria e bastante acessível para qualquer tipo de espectadora. Juntos conseguem colocar em xeque a lógica linear, cartesiana. Também fazem isso com o enquadramento: estamos constantemente atentas à tela, o que prova que os sentidos vão além da narrativa clássica. Para assistir Todas as Estradas de Terra têm Gosto de Sal em sua plenitude, basta abrirmos mão da pressa do tempo linear e lembrarmos de como nossos fragmentos de memória são montados para constituir nossa história. Um filme para quem assiste confiar no que sente.

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AUTOR

Emanuela Siqueira

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