Transamazônia

(2024) ‧ 1h52

04.01.2026

"Transamazônia": Quando o olhar estrangeiro decide contar uma história regional

Transamazônia é dirigido pela diretora sul africana Pia Marais. Inicialmente, Pia queria contar outra história. Ela se impressionou com o caso real de uma jovem alemã, única sobrevivente de um acidente aéreo nos anos 1970. A história em questão ocorreu de verdade, mas na parte peruana da floresta, e num período diferente do recorte temporal mostrado no filme. Isso porque Marais não conseguiu os direitos para produzir essa história, mas ainda assim quis contar algo parecido.

Em Transamazônia, Rebecca, interpretada por Helena Zengel, também é sobrevivente de um acidente aéreo. No filme, a personagem por ter sobrevivido a esse acidente passou a ser vista de forma diferente dentro da comunidade religiosa liderada por seu pai, o missionário estrangeiro Lawrence Byrne. É como se Rebeca fosse escolhida por Deus, recebendo a capacidade de operar milagres.

O que poderia ser apenas uma história de fanatismo religioso, logo se transforma em algo maior quando a presença da comunidade adentra terras indígenas ameaçadas por madeireiros ilegais. Marais retrata a fé como instrumento de poder, o que pode incomodar bastante gente Brasil afora, e trazer algumas críticas só por conta disso.

Apesar do discurso religioso, a relação entre Rebecca e o pai é o foco da narrativa. Rebecca fala pouco, mas seus olhares carregam culpa, medo e dúvida. Contrapondo com seu pai, que parece se aproveitar do status de curandeira da filha para fins egoístas.

A fotografia do filme retrata uma floresta amazônica quase onírica, contrastando o branco da comunidade evangélica com o verde da mata, criando uma ideia de dois mundos diferentes tentando coexistir. É fato que o Norte é a região onde a religião evangélica mais cresce, então, para muitos, seria complicado retratar essa história sem cair em armadilhas. O olhar estrangeiro da diretora talvez seja uma oportunidade de nos mostrar uma outra forma de perceber esses eventos político-religiosos que tomam conta da região.

No fim, o filme traz questionamentos e nenhuma resposta. O que fica é uma sensação incômoda de que alguém entrou no nosso quintal e nos filmou em um momento de intimidade familiar, e depois decidiu mostrar para o mundo. Para alguns é um absurdo, para outros é só mais um filme que poderia ter sido melhor executado.

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AUTOR

Viní­cius Gratão

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