Um Belo Verão

21.01.2016 │ 15:44

21.01.2016 │ 15:44

A diretora francesa Catherine Corsini (Partir) é uma veterana do cinema francês, mas garante que com Um Belo Verão, seu trabalho mais recente, inicia uma espécie de recomeço em sua carreira. Não é por menos, o filme vem em um ótimo momento em que diretoras – e outras profissionais de cinema – ousam filmar roteiros de mulheres importantes da História, assim como tramas que envolvam situações fora das visões tradicionais, mostrando que a linguagem cinematográfica pode ir ainda mais longe e ser mais plural.
Assim como o bom Carol, de Todd Haynes – que vem chamando a atenção por retratar a relação de duas mulheres nos anos 40 – Um Belo Verão vai até os anos 70 para mostrar a explosiva paixão entre Carole (Cécile de France, de Além da Vida) e Delphine (Izïa Higelin, de Samba), duas personagens antagônicas mas completamente atraídas entre si. Delphine é uma jovem do interior, que trabalha ajudando os pais em uma fazenda leiteira, certa de si mas dependente da família justamente por esconder a sua sexualidade. Já Carole é uma militante do Movimento da Libertação das Mulheres em Paris, professora e companheira de um militante comunista. Delphine abandona o campo para ter uma vida mais independente na capital francesa e conhece Carole na rua, durante uma ação das militantes da MLF e passam a conviver cada vez mais, iniciando uma relação de descobertas, ímpetos e escolhas.
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Corsini e a roteirista Laurette Polmanss (Anna, 3 kilos 2) fizeram uma extensa pesquisa para ambientar Um Belo Verão no contexto dos anos de 1970. Fugindo das ideias de investir em direção de arte e cenários – comparando mais uma vez com Carol que se foca bastante nesse aspecto – o filme aposta nos diálogos e relacionamentos. Desde maio de 1968 a sociedade francesa vivia um novo período após a greve geral, que mobilizou várias camadas da sociedade, os movimentos sociais por direitos cresciam e ganhavam voz. O movimento feminista é o grande contexto do filme, são retratados momentos importantes da MLF como o ato de jogar vitelos durante uma votação contra o aborto e a libertação de homossexuais, na época internados em clínicas psiquiátricas na Itália, por exemplo.
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Um dos grandes trunfos de Um Belo Verão está no cuidado em não deixar que nenhuma das duas tramas – o romance e o movimento feminista da época – tomem o lugar um do outro. A relação de Carole e Delphine coexiste com o retrato das lutas das mulheres do grupo que elas fazem parte. Mesmo que Carole seja uma feminista, há uma certa dificuldade de aceitar sua bissexualidade assim como Delphine, que mesmo desejando viver uma plenitude de seus desejos, ainda precisa se desvincular da necessidade de agradar a sua família e as regras sociais. É nessas batalhas individuais que o filme também toca nos conflitos pessoais da militância, mostrando que uma luta coletiva também passa pelas lutas individuais. Nesse aspecto o longa deixa claro que não tem intenções de ser um filme histórico e sim de contar uma boa história ambientada em determinado período.
Apesar de vários fatores serem positivos para a liberdade sexual, afinal eram os anos 70 e havia toda uma mitologia sobre o corpo e o sexo na França, como insinua o cartaz oficial do filme, Um Belo Verão não reforça nenhum estereótipo do gênero. As cenas de nudez são como parte de um quadro bucólico, como bem definiu a diretora em uma entrevista, como se fosse uma pintura de Manet. Só que aqui é como se uma mulher pintasse o quadro, uma espécie de visão de uma mulher sobre o corpo de outras mulheres. Ajuda bastante o fato de Cécile de France e Izïa Higelin trabalharem muito bem juntas, assim como todo o elenco do filme, incluindo os poucos homens que em nenhum momento são tratados como antagonistas.
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Um Belo Verão entrega para o espectador, em uma primeira camada, uma história de amor e seus contratempos, talvez nada de novo. Mas é o olhar sensível que comove, a naturalidade dos corpos, a efervescência das crenças e discussões, e a tentativa de poupar as pessoas amadas das dificuldades do mundo que fazem o filme não ser categorizado como uma obra para determinado público, mas sim para quem acredite em amor, pelas crenças ou pelas pessoas.
Nota:

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TopoMyFFF2016

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