Um Lobo Entre os Cisnes

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"Um Lobo entre os Cisnes": A dança como transformação, entre virtuosismo e estereótipos

O filme Um Lobo entre os Cisnes, dirigido por Marcos Schechtman e Helena Varvaki, é uma cinebiografia que acompanha a trajetória do bailarino brasileiro Thiago Soares, desde sua juventude no subúrbio do Rio de Janeiro, onde inicia sua relação com a dança por meio do hip hop, até sua consagração nos palcos do balé clássico internacional.

Baseado em eventos reais, o enredo apresenta Thiago (com a belíssima interpretação de Matheus Abreu) como um jovem impulsivo e indisciplinado, que carrega o hip hop como referência. Sua vida muda ao conquistar uma bolsa de estudos em uma prestigiada escola de balé na cidade do Rio de Janeiro. Lá, passa a ser treinado por Dino Carreti, um renomado e exigente professor cubano, vivido por Dario Grandinetti (ator argentino que já atuou com Pedro Almodóvar). A relação entre aluno e mestre é marcada por tensões, conflitos e por uma pedagogia da dureza, que aos poucos dá lugar a uma conexão mais profunda e afetiva.

O filme desenvolve dois eixos temáticos centrais: por um lado, o balé é apresentado como forma vital de expressão e afirmação de identidade, sintetizado na frase dita por Dino: “Dançar é a sua forma de comunicar com o mundo”; por outro, evidencia-se o enfrentamento dos preconceitos de gênero em torno da dança, em especial, a visões restritivas de masculinidade associadas à padrões tóxicos de masculinidade e virilidade. Essa concepção limitadora é reforçada tanto pela rejeição social ao balé masculino quanto pelo próprio retrato de Thiago como um sujeito arrogante, mulherengo e impulsivo, o que acaba sendo uma escolha questionável dos roteiristas e da direção.

Nesse sentido, Um Lobo entre os Cisnes tem méritos ao abordar o balé como um instrumento de transformação e ascensão social, em especial, para jovens de contextos periféricos. No entanto, o filme perde a oportunidade de explorar com maior profundidade as camadas simbólicas e políticas da dança como arte de resistência, sensibilidade e reconstrução de masculinidades. Ao insistir na imagem do “pegador indisciplinado”, acaba por reproduzir, em certa medida, a mesma lógica de virilidade que parece que se propõe a problematizar.

Ainda assim, a cinebiografia cumpre um papel importante ao popularizar a história de um artista brasileiro de projeção internacional, e ao evidenciar a potência do balé como linguagem de vida. Há potência, há beleza, mas também há espaço para mais sensibilidade e crítica.

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