Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky

(2024) ‧ 1h26

A câmera como memória de um país

Felipe Fornari

Imagens registradas em 1973 atravessam mais de cinco décadas até reencontrar aquele que a capturou. Durante um trabalho para a televisão alemã, Jorge Bodanzky sobrevoava uma região do Mato Grosso quando sua câmera encontrou, cercada pela floresta, uma aldeia indígena cujos habitantes reagiam à presença daquela máquina voadora disparando flechas em sua direção. Recuperado anos depois em seu vasto acervo, o registro se transforma no impulso de Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky. Mais do que descobrir o que aconteceu com aquelas pessoas, porém, o retorno à imagem permite que o cineasta percorra a própria memória e observe quanto o Brasil diante de sua câmera se transformou — quase nunca para melhor.

Bodanzky sempre pareceu compreender a câmera menos como uma ferramenta de trabalho do que como uma extensão de seu próprio olhar. Fotografias, filmes, reportagens e registros pessoais compõem uma espécie de diário visual acumulado ao longo de décadas, e o documentário dirigido por ele e Liliane Maia encontra sua estrutura justamente nesse arquivo. Não há a preocupação em organizar uma biografia convencional, seguindo datas, obras e acontecimentos de maneira rigorosamente cronológica. Uma lembrança conduz a outra, uma película recuperada abre caminho para uma nova história e, aos poucos, entendemos o homem através das imagens que decidiu preservar.

Naturalmente, Iracema – Uma Transa Amazônica ocupa um lugar importante nesse percurso. A mistura de ficção e realidade que marcou o longa também ajuda a compreender a maneira como Bodanzky se relaciona com aqueles que coloca diante da câmera. Seu cinema nasce muito mais da observação e da escuta do que da tentativa de impor uma narrativa previamente construída. Os registros de bastidores recuperados aqui são especialmente interessantes porque revelam que aquela aproximação com a Amazônia não representava somente uma escolha estética. Já existia um interesse em documentar as contradições de um território onde a promessa de desenvolvimento frequentemente escondia processos violentos de exploração.

É nesse ponto que a viagem ao passado deixa de ser somente uma investigação pessoal. Quando Bodanzky retorna à região registrada nos anos 1970, as duas épocas passam a conversar diretamente. A floresta que ocupava quase todo o enquadramento já não é a mesma, enquanto os povos que viviam naquele território carregam as consequências de décadas de intervenções e políticas de exploração. O filme não precisa elaborar grandes discursos para tornar essa transformação evidente: colocar as imagens antigas ao lado das atuais já produz um comentário suficientemente poderoso. O arquivo deixa de funcionar como nostalgia e passa a constituir uma evidência material daquilo que desapareceu.

Um Olhar Inquieto também encontra espaço para percorrer outros capítulos menos conhecidos de uma carreira que ultrapassa sua relação com a Amazônia. Surgem lembranças do trabalho como fotógrafo em Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., reflexões sobre a experiência adquirida como navegador e sua influência na maneira de compreender a luz, além da recuperação de filmes e personagens que ajudam a revelar a inquietação mencionada pelo título. Particularmente dolorosa é a lembrança de Gitirana, obra exibida em Cannes e posteriormente perdida, que acrescenta outra dimensão ao documentário: preservar cinema no Brasil muitas vezes significa lutar contra o desaparecimento.

A proximidade entre realizador e objeto, contudo, também impõe limites ao filme. Bodanzky ocupa praticamente todos os espaços possíveis da narrativa: é personagem, narrador, memória, guia e, ao mesmo tempo, um de seus diretores. Essa onipresença combina com a proposta íntima, mas eventualmente aproxima Um Olhar Inquieto de uma celebração conduzida pelo próprio homenageado. Faltam contrapontos e outras vozes capazes de observar sua obra de fora, assim como a participação de Liliane Maia na construção do documentário permanece pouco perceptível. Em alguns momentos, o desejo de contemplar tantas realizações enfraquece justamente a espontaneidade que torna seus melhores trechos tão interessantes.

Ainda assim, há algo particularmente valioso em assistir a um cineasta reencontrar as próprias imagens e perceber que elas continuam falando sobre o país décadas depois. Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky funciona simultaneamente como autorretrato, reflexão sobre a Amazônia e defesa apaixonada da preservação audiovisual. Se sua admiração pelo próprio personagem às vezes impede um mergulho mais crítico, o material recuperado possui força suficiente para ultrapassar essa limitação. Bodanzky passou a vida apontando sua câmera para um Brasil em transformação; agora, ao olhar novamente para aquilo que registrou, descobre que preservar uma imagem também significa impedir que o tempo apague aquilo que talvez preferíssemos não lembrar.

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