Um Triste e Belo Mundo

(2025) ‧ 1h50

Entre a dor e a beleza de viver

Ricardo Feldmann Dotto

Um Triste e Belo Mundo é um drama romântico dirigido por Cyril Aris. A trama acompanha o casal Nino e Yasmina ao longo de 30 anos no Líbano. Divididos entre a paixão e a sobrevivência, eles precisam escolher entre formar uma família no país ou deixar suas raízes.

Protagonizando três décadas vividas por Nino (Hassan Akil) e Yasmina (Mounia Akl), os dois serão colocados frente a frente em mais uma situação de desilusão. No entanto, uma sensação de esperança também acaba invadindo o lado racional deles. Tendo que escolher entre se amarem ou lutarem pelas suas sobrevivência, mais especificamente no Líbano, mesmo com todas as tragédias que estão afloradas no país.

O filme examina o profundo dilema de viver em um local afetado por sucessivas crises sociopolíticas, equilibrando a dor e a esperança.

O cinema contemporâneo frequentemente se perde na tentativa de equilibrar o desespero humano com a beleza estética. No entanto, Um Triste e Belo Mundo consegue atingir esse equilíbrio de forma brilhante, entregando uma obra que é, ao mesmo tempo, um soco no estômago e um abraço caloroso na alma.

O filme nos convida a caminhar por uma narrativa poética sobre a imperfeição da vida, a dor da perda e a insistente e misteriosa beleza que insiste em brotar das rachaduras do sofrimento.

O grande trunfo do longa está em seu próprio título oxímoro. A direção não foge da crueza da realidade, seja ela social, psicológica ou existencial. Os silêncios são longos, as dores dos personagens são palpáveis e não há soluções mágicas ou finais hollywoodianos pasteurizados.

Por outro lado, a cinematografia transforma o ordinário em extraordinário. Uma poça de lama refletindo o céu, a luz do sol cortando uma sala vazia ou um breve momento de conexão genuína entre dois desconhecidos são filmados com uma delicadeza quase sagrada. O longa nos lembra que o mundo é triste, sim, mas a sua contemplação ainda é um ato de beleza.

O elenco entrega performances minimalistas, onde o menos é mais. Os diálogos são escassos, deixando que o peso da narrativa seja carregado por olhares vagos que dizem mais que monólogos inteiros, linguagem corporal que denota o cansaço do dia a dia e sorrisos contidos, que surgem como pequenos atos de rebeldia contra a tristeza dominante.

Essa contenção evita que o filme caia no melodrama barato ou no cinismo vazio. Nós sofremos com os personagens porque os reconhecemos como humanos, não como caricaturas de sofrimento.

A paleta de cores transita entre tons melancólicos (cinzas, azuis frios e terrosos) e explosões súbitas de cores quentes em momentos de virada emocional. A trilha sonora, pontuada por pianos sutis e cordas melancólicas, funciona como um personagem invisível, ditando o ritmo cardíaco da projeção sem nunca soterrar as cenas.

Concluindo, Um Triste e Belo Mundo não é um filme de escapismo. É uma obra de confrontação e acolhimento. Ele não oferece respostas fáceis para as dores da existência, mas valida o nosso direito de chorar, ao mesmo tempo em que nos empurra para abrir a janela e olhar o pôr do sol.

Para quem busca um cinema comercial veloz e mastigado, o ritmo contemplativo pode ser um desafio. Mas para os amantes da sétima arte que enxergam o cinema como uma extensão da experiência humana, é uma obra-prima indispensável e inesquecível. Um clássico instantâneo sobre a resiliência poética da vida.

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