Zafari

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“Zafari” é um filme distópico em uma Caracas fictícia (ou não) à beira de um colapso social

Muitos filmes falam de crise social e expõe problemas como a fome, mas Zafari fala de algo ainda mais desconfortável do que isso. Dirigido por Mariana Rondón, o longa narra o momento exato em que a civilização começa a se quebrar por dentro. Zafari é uma mistura de distopia com um thriller psicológico (e aqui devo confessar que precisamos de mais títulos latinos como esse!).

Rondón explora a escassez e o medo do “outro”, a paranóia que nasce quando não se pode mais confiar em nada, nem em si mesmo. A diretora constrói uma erosão social (e estética) de forma silenciosa em uma Venezuela à beira do colapso (aqui vejo uma crítica ao atual momento político vivido no país).

O filme se passa dentro de um prédio residencial decadente, vizinho a um zoológico igualmente abandonado. A história acompanha uma família que mora em um apartamento amplo que reflete um passado confortável, mas que hoje funciona mais como uma lembrança de uma classe média que não existe mais.

Os personagens sofrem com falta de água, luz, comida, e aos poucos de humanidade. O drama circula ao redor da chegada de um hipopótamo ao zoológico vizinho, batizado de Zafari. Enquanto as pessoas passam fome, Zafari recebe alimentos frescos. Isso gera conflito, tentação e desespero enquanto a fome aumenta.

A encenação é minimalista. Não espere por explosões emocionais ou conflitos grandiosos (o que gostei bastante, porque a resposta mais fácil para esse cenário seriam atuações carregadas de drama, o que já mostra o ponto criativo de Rondón). O tom de horror aparece nos armários vazios, corredores silenciosos, apartamentos saqueados, no mofo e na fotografia que explora uma atmosfera sufocante.

Rondón não nos dá heroísmo ou redenção, mas apenas a pura luta pela sobrevivência. A dinâmica familiar se desmancha aos poucos, colapsando junto com a nossa ideia de uma Venezuela que já foi grande, mas hoje definha. Visualmente o filme é cheio de simbolismos, por exemplo, os espaços físicos refletindo estados mentais quase de forma onírica.

Apesar de ter uma narrativa arrastada (muito arrastada) e uma certa tendência a não se aprofundar em críticas sociais (o que torna o roteiro um pouco raso nesse aspecto), Zafari aproveita para explorar comportamentos individuais. E talvez isso torne o filme uma experiência desconfortável.

Quando terminei de assistir, sai com um certo tipo de mal estar, ou uma “ressaca moral”. O filme é um grande dilema ético que nos faz refletir sobre a fome, e como ela é capaz de corroer o que mais brilha dentro de nós, a nossa humanidade. VALE MUITO A PENA ASSISTIR!

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