Zud

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22.06.2016

Um dos pontos altos de Zud é a forma que Mironowicz adentra nesse universo masculino e rígido

Enquanto estamos sempre impregnados pela urgência do urbano e ocidental, em alguns lugares do mundo a vida corre conforme o tempo da natureza e mesmo assim os conflitos vividos na passagem da infância para a maturidade requerem rituais e tradições universais. Em Zud, documentário da polonesa Marta Mironowicz com Kenneth Mcbride, o retrato de uma família da Mongólia consegue capturar ora o nomadismo que a natureza requer, ora as raízes fincadas nas tradições seculares desse povo.

Conforme as estações do ano vão mudando, a família do pequeno Sukhbat também vai adaptando seus modos de sobrevivência, como por exemplo as criações de ovelhas e cavalos selvagens. A relação dessas pessoas com a natureza é muito estreita e intensa, e isso é mostrado através das figuras de um garoto e seu pai. Aparentemente bucólico – longas cenas de planos abertos, deixando claro o esplendor da natureza diante da pequenez dos homens – o filme é bastante intimista, pois tem como foco o amadurecimento de Sukhbat através de rituais tradicionais, como a corrida de cavalos selvagens pela estepe.

Em momento algum Zud tenta apressar as imagens ou a narrativa proposta pelo roteiro. Como acontece de fato na estepe, tudo ocorre em seu determinado tempo, logo na primeira cena acompanhamos um ponto pequeno que se move pela neve, o pai que busca o corpo de uma ovelha que não suportou o frio. Mesmo que o animal seja criado para determinados fins, percebe-se uma intrínseca relação entre os animais e criadores, algo que acompanha o documentário até o fim. A demora, que pode incomodar o espectador mais desavisado, é beneficiada pelas belas imagens de uma região inóspita e tão distante de nossas realidades.

Um dos pontos altos de Zud é a forma que Mironowicz adentra nesse universo masculino e rígido, mostrando a relação silenciosa e íntima entre pai e filho. O ciclo da vida é apresentado de forma primorosa, mostrando que mesmo que haja a morte de algo, sempre existe o benefício do nascimento de outra coisa, dançando conforme a orquestragem da natureza. A figura da mãe, mesmo que suprimida nessa cultura, também é apresentada de forma terna, assim como todos os retratados em cena. O bonito dessa breve amostra do cotidiano de uma família mongol é perceber que, mesmo no silêncio predominante, as relações entre humanos e natureza são repletas de significados e respostas.

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AUTOR

Emanuela Siqueira

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