Menina de Ouro

(2004) ‧ 2h12

11.02.2005

"Menina de Ouro", uma obra de ouro!

São raros os casos em que o espectador vai ao cinema e percebe que aprendeu alguma coisa com o filme assistido. Nos últimos tempos, só encontramos arrasa-quarteirões com estilo “Matrix” que não possuem a pretensão de ensinar nada além de mostrar efeitos especiais mirabolantes.

É pra contrariar, que entra em cena o ganhador do Oscar “Menina de Ouro”. Que mesmo sendo um filme simples, nos faz pensarmos após sairmos da sala de projeção.

O longa conta a história do treinador de boxe Frank Dunn (Clint Eastwood), o qual frequenta a missa toda semana, mas não é exatamente um devoto. Vai à igreja para atazanar o padre com indiretas sagazes sobre a imaculada concepção e outras crenças. Em contrapartida, é indagado se escreveu à filha que não vê há anos. O treinador escapa fácil, diz que sim, sorrindo. Várias vezes o pároco questiona porque aquele pagão continua mentindo e o chateando. Mas quando, em um período grave de “Menina de Ouro”, Frank realmente precisa de respostas, é a igreja que ele busca angustiado.

Em suma, ele duvida de crenças pré-estabelecidas, mas crê no poder da purificação. Essa é a composição não somente deste, mas de boa parte dos personagens vividos por Clint Eastwood. Pode ser a idade, pode ser a percepção de que a “América” não é o modelo de justiça que se imaginava, mas o caso é que os heróis de Eastwood agora se incomodam com a mortalidade, com o fardo do dever de vencer e, sobretudo, com o sentimento de culpa.

“A Menina de Ouro” aborda, ainda, o contraste da caipira Maggie (Hilary Swank) contra o conformismo e contra o preconceito do treinador machista que a princípio não quer apoiá-la a iniciar a carreira de pugilista. Mas, na verdade, o drama de Frank é que dá ao filme o seu enorme poder de comoção.

Fica comprovado, visivelmente, que Eastwood é um grande diretor, além de ator. Ele pensa em cada quadro, cada tom de luz e sombra usando para trazer dramaticidade ao filme, sem parecer artificial. É evidente que o diretor mereceu bater Martin Scorsese (“O Aviador”) na corrida ao Oscar.

Outras obras-primas sobre boxe já foram criadas. São obras de tal intensidade justamente por pegar emprestado o boxe como motivo para falar da vida. Mesmo parecendo um filme bastante tradicional, “Menina de Ouro” mostra o seu valor em suas entrelinhas. Sabe o momento de resistir e o momento de baixar a guarda. É sua mais poderosa lição para o mundo real.

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AUTOR

Felipe Fornari

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