Malu

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24.10.2024

"Malu" é menos uma cinebiografia de uma grande atriz e mais um filme de observação de três personagens mulheres de uma mesma família.

Malu é a estreia de Pedro Freire na direção e também um filme sobre a sua mãe – a atriz Malu Rocha (1947-2013) –, porém sem a pretensão de ser uma cinebiografia. Em vez de querer contar a história dela, o roteiro se envereda para um estudo de personagem envolvendo três mulheres habitadas por uma figura materna chamada de Malu.

Pedro Freire traz uma mão firme na direção de atrizes – sendo que é professor justamente nessa área na EICTV de Cuba –, orientando mãe/filha/avó, Yara Novaes (Malu), Carol Duarte (Joana) e Juliana Carneiro da Cunha (dona Lili) em uma espécie de balé ora íntimo e sensível, outrora brutal e violento. Em Malu, a atriz surge como alguém afastada dos palcos já na década de 1990, cuidando da mãe em uma cidadezinha litorânea e vivendo das memórias de uma época áurea do teatro político vivido durante a ditadura no Brasil. Malu é uma filha do tempo, do desbunde cultural e que naquele presente vive uma relação complexa com a mãe idosa que representa uma outra geração de mulheres. A chegada da filha Joana – que estava na Europa –, colabora para que tudo se intensifique, pois as três precisam lidar não apenas com seus lugares nessa família tão matriarcal, mas também com os lugares intercambiáveis que cada uma ocupa com a passagem do tempo acontecendo em seus corpos.

Um estudo de personagem exige observação para que possamos perceber a intimidade que complexifica as relações para além de uma análise apressada e maniqueista de maldade ou bondade. Em Malu acompanhamos uma casa, ou melhor, uma construção parada no tempo que reproduz a ideia de casa. Malu sonha que esse lugar, fruto do seu trabalho duro entre as décadas de 1970 e 1980, seja um teatro e espaço cultural da localidade em que vive. Mas, para isso, precisa lidar com a mãe idosa que tem uma visão conservadora em relação à sua e também a atual falta de dinheiro. Por outro lado, Joana, filha e neta, percebe tudo de maneira ainda diferente das duas. É na convivência das três que observamos de perto os tênues limites geracionais, assim como o que significa a palavra herança quando pensamos em mulheres de uma mesma família e de gerações diferentes.

Talvez apenas o que se chama de loucura seja o que herdamos umas das outras. Quando adentramos a privacidade dessas três mulheres não vemos apenas atrizes dando o seu melhor, mas enxergamos a espessura da linha que as conecta e que também as separa. Malu é filha e mãe, a geração que recebe e transmite nessa porção de história. Há algumas cenas em que as três convivem mas, em especial, há uma em que dona Lili cuida de uma bromélia enquanto Joana rega devagar e Malu observa. Lili diz que a flor só é bonita porque sofre. Simples e representativo, a ideia que romantiza o sofrimento de mulheres colocada em cena. Com Malu, Pedro não opta por essa via, da romantização, para contar a complexidade que foi a existência da sua mãe, mas prefere fabular partindo de elementos da realidade para trazer o absurdo que surge dentro da convivência familiar. Um filme sobre transmissão geracional de histórias, loucura, saúde, performance e a vida, estranha e levada até o limite, como deve ser.

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AUTOR

Emanuela Siqueira

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