Edifício Bonfim parte de uma premissa bastante promissora ao transformar um condomínio em palco para acontecimentos sobrenaturais inspirados no imaginário folclórico de Florianópolis. Misturando horror, suspense policial e elementos fantásticos ligados às lendas da chamada “Ilha da Magia”, o longa dirigido por Ligia Walper e Tomás Walper Ruas demonstra ambição ao tentar construir um universo próprio dentro do terror brasileiro contemporâneo. O problema é que nem todas essas ideias encontram um desenvolvimento igualmente consistente.
A estrutura fragmentada, dividida em histórias que se cruzam dentro do mesmo prédio, funciona inicialmente como um convite interessante para o espectador. Existe curiosidade em acompanhar aqueles moradores e entender de que forma os acontecimentos macabros se conectam. A circulação dos personagens entre os diferentes núcleos ajuda a criar uma sensação de estranheza constante, como se aquele edifício escondesse algo perturbador atrás de cada porta.

Visualmente, o filme encontra alguns momentos inspirados. As imagens de Florianópolis ajudam a construir uma atmosfera particular, aproveitando tanto os cenários urbanos quanto as paisagens mais naturais da cidade. Há sequências silenciosas e enquadramentos que conseguem gerar tensão de maneira eficiente, especialmente quando o longa desacelera e permite que o clima fale mais alto do que os diálogos ou as explicações excessivas.
O elenco demonstra entrega, com destaque para Gabi Petry, que consegue sustentar parte da carga dramática mesmo quando o roteiro vacila. Ainda assim, algumas interpretações sofrem com diálogos pouco naturais e situações que exigiriam maior refinamento emocional. Em certos momentos, a sensação é de que o filme possui boas intenções narrativas, mas ainda procura encontrar o tom ideal para equilibrar horror, humor e mistério.
O maior problema de Edifício Bonfim está justamente na dificuldade de amarrar suas diferentes propostas. O longa tenta manter uma dúvida constante entre elementos sobrenaturais e uma lógica mais ligada ao thriller criminal, mas essa construção acaba se tornando confusa no desfecho. Conforme as histórias avançam, algumas conexões parecem frágeis demais e certas resoluções não possuem o impacto necessário para justificar o caminho percorrido.

Aspectos técnicos também oscilam bastante. A maquiagem e algumas caracterizações passam uma sensação artificial que enfraquece o terror em momentos importantes, enquanto a trilha sonora nem sempre encontra equilíbrio, às vezes invadindo demais as cenas. Falta ao filme uma direção estética mais definida, algo que abraçasse totalmente o exagero fantástico ou buscasse uma abordagem mais contida e atmosférica.
Mesmo com essas irregularidades, Edifício Bonfim possui valor como tentativa de explorar um horror brasileiro conectado ao folclore regional e às lendas locais. Há criatividade nas ideias e sinceridade no desejo de construir algo diferente dentro do gênero. Embora o resultado final seja inconsistente e incapaz de sustentar toda sua ambição, o filme ainda revela caminhos interessantes e demonstra potencial para futuras experiências mais maduras dentro desse universo fantástico.






