Edifício Bonfim

(2026) ‧ 1h27

Entre bruxas, mistérios e ideias inacabadas

Felipe Fornari

Edifício Bonfim parte de uma premissa bastante promissora ao transformar um condomínio em palco para acontecimentos sobrenaturais inspirados no imaginário folclórico de Florianópolis. Misturando horror, suspense policial e elementos fantásticos ligados às lendas da chamada “Ilha da Magia”, o longa dirigido por Ligia Walper e Tomás Walper Ruas demonstra ambição ao tentar construir um universo próprio dentro do terror brasileiro contemporâneo. O problema é que nem todas essas ideias encontram um desenvolvimento igualmente consistente.

A estrutura fragmentada, dividida em histórias que se cruzam dentro do mesmo prédio, funciona inicialmente como um convite interessante para o espectador. Existe curiosidade em acompanhar aqueles moradores e entender de que forma os acontecimentos macabros se conectam. A circulação dos personagens entre os diferentes núcleos ajuda a criar uma sensação de estranheza constante, como se aquele edifício escondesse algo perturbador atrás de cada porta.

Visualmente, o filme encontra alguns momentos inspirados. As imagens de Florianópolis ajudam a construir uma atmosfera particular, aproveitando tanto os cenários urbanos quanto as paisagens mais naturais da cidade. Há sequências silenciosas e enquadramentos que conseguem gerar tensão de maneira eficiente, especialmente quando o longa desacelera e permite que o clima fale mais alto do que os diálogos ou as explicações excessivas.

O elenco demonstra entrega, com destaque para Gabi Petry, que consegue sustentar parte da carga dramática mesmo quando o roteiro vacila. Ainda assim, algumas interpretações sofrem com diálogos pouco naturais e situações que exigiriam maior refinamento emocional. Em certos momentos, a sensação é de que o filme possui boas intenções narrativas, mas ainda procura encontrar o tom ideal para equilibrar horror, humor e mistério.

O maior problema de Edifício Bonfim está justamente na dificuldade de amarrar suas diferentes propostas. O longa tenta manter uma dúvida constante entre elementos sobrenaturais e uma lógica mais ligada ao thriller criminal, mas essa construção acaba se tornando confusa no desfecho. Conforme as histórias avançam, algumas conexões parecem frágeis demais e certas resoluções não possuem o impacto necessário para justificar o caminho percorrido.

Aspectos técnicos também oscilam bastante. A maquiagem e algumas caracterizações passam uma sensação artificial que enfraquece o terror em momentos importantes, enquanto a trilha sonora nem sempre encontra equilíbrio, às vezes invadindo demais as cenas. Falta ao filme uma direção estética mais definida, algo que abraçasse totalmente o exagero fantástico ou buscasse uma abordagem mais contida e atmosférica.

Mesmo com essas irregularidades, Edifício Bonfim possui valor como tentativa de explorar um horror brasileiro conectado ao folclore regional e às lendas locais. Há criatividade nas ideias e sinceridade no desejo de construir algo diferente dentro do gênero. Embora o resultado final seja inconsistente e incapaz de sustentar toda sua ambição, o filme ainda revela caminhos interessantes e demonstra potencial para futuras experiências mais maduras dentro desse universo fantástico.

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