A Chegada

"A Chegada" é uma odisseia orquestrada sobre nossa percepção de tempo e a beleza da comunicação

24.11.2016 │ 12:18

24.11.2016 │ 12:18

"A Chegada" é uma odisseia orquestrada sobre nossa percepção de tempo e a beleza da comunicação

“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.” Essa frase poderia estar estampada no cartaz de A Chegada, novo longa do canadense Denis Villeneuve (Sicário: Terra de Ninguém). Ela foi dita pelo astrofísico Carl Sagan sobre a noção de tempo e espaço diante de um universo tão desconhecido por nós, assim como nossa percepção de existência como seres habitando um planeta. O filme coloca em cheque não apenas a relação que sentimos, beirando ao absurdo, à existência do outro, além do humano, mas também todo nosso arcabouço de conhecimento e compreensão em relação aos sinais que colocam em conformidade nossa comunicação, marcação do tempo e visão diante de uma suposta lógica da vida na Terra.

Baseado no premiado conto Story of your life [História de Sua Vida, em tradução livre] do escritor americano Ted Chiang, A Chegada mostra a odisseia da linguista/tradutora/intérprete Louise Banks (Amy Adams, em excelente performance) e do físico Ian Donnely (Jeremy Renner) para se comunicarem com uma espécie alienígena que pousa naves em doze pontos da Terra. Nessa ideia, quase que banal e corriqueira em produções do gênero, é que o filme coloca o foco em questões muito mais existenciais – sempre oscilando entre o metafísico e a lógica científica, nunca se chocando – e desenvolve uma história de entendimento de que, resumindo Einstein, tudo é relativo.

Com a chegada dos alienígenas – ou heptapodos, como são definidos posteriormente – o mundo está em pânico. O medo do desconhecido é característica da história do planeta, foi assim que fronteiras foram construídas, afinal somos seres de combate. A CIA e o exército americano – em parceria com os doze outros locais em que as naves pousaram – ao invés de lançarem fogo sobre o inimigo, resolvem se comunicar e para isso precisam de especialistas. É como se o segredo e arma de luta estivessem dentro dos próprios humanos, os únicos que podem se demorar sobre os sinais de comunicação, as lógicas e interpretar tudo com atenção. Mas na situação proposta no filme, não há tempo para isso, é necessário saber imediatamente o que o outro quer dizer com determinada frase, comportamento e ação. Em A Chegada Louise precisa dar respostas certeiras ao exército e a CIA, sedentos para empunhar as armas e acabar com os inimigos. Tem-se aí a velha noção do outro, com uma língua e aparência diferentes, como se oferecessem resistência. Em determinado momento um dos chefes da operação diz que a História conta sobre a chegada de estrangeiros em territórios nacionais, há guerra e isso diz muito sobre a total falta de noção sobre a comunicação. Qualquer interpretação errônea na tradução da língua pode ser fatal.

Nessa aventura em decifrar a beleza dos sinais que os heptapodos se comunicam é que a história de Louise, Ian e a vida terrestre se constroem e se misturam de forma fascinante. Como já feito anteriormente, Villeneuve orquestra muito bem situações que circulam entre o fator absurdo da vida – um duplo em O Homem Duplicado ou uma coincidência cruel em Incêndios – e a obsessão por uma investigação teórica, seja a matemática, física ou psicanálise. Aqui é a hipótese linguística de Saphir-Whorf que faz a ligação entre o elemento absurdo e a teoria. Após se comunicar com os heptapodos, Louise passa dias e noites se debruçando sobre essa forma de comunicação, traduzindo e manipulando de forma a obter respostas claras. Nessa imersão ela sofreria o relativismo linguístico, como se sua mente e modo de ver o mundo se adaptasse à nova língua que ela compreende. É a partir desse ponto que A Chegada passa a questionar a noção de tempo, fazendo o espectador perceber que essas ideias já estavam sendo exploradas desde a introdução, cortes do filme e as memórias de Louise.

A noção de tempo talvez seja um dos conceitos mais explorados na ficção, tanto na literatura como no cinema. Há uma necessidade humana em definir a passagem dos segundos, do que os acúmulos destes causam no corpo e na mente, e a ficção científica parece ser o campo mais confortável para a exploração do assunto. Não apenas o tempo, mas tudo que há de estranho e absurdo durante esse momento vivido, o fim e o começo como grandes pontos de interrogação da existência. Apesar da divulgação de A Chegada focar nos fãs de invasões alienígenas e todo o conflito entre nós e a estranheza do outro, o longa consegue apenas se ocupar disso como plano de fundo para explorar questionamentos embrenhados em toda uma grande questão interdisciplinar da existência e a relatividade dela. O espectador é convidado a assistir esse espetáculo e esquecer suas certezas.

Destaque para a trilha sonora minimalista e forte de Jóhann Jóhannsson (compositor islandês indicado ao Oscar por A Teoria de Tudo), que acompanha o diretor nos últimos trabalhos, conseguindo criar tensões e emoções que distanciam o filme de produções do estilo. E também para o roteiro adaptado de Eric Heisserer, que até então tinha no currículo apenas alguns filmes de terror sem destaque, mas que junto com Villeneuve trabalha muito bem sobre o conto de Chiang. Como já citado, Amy Adams é o grande fio condutor em uma excelente performance, um destaque importantíssimo para uma protagonista mulher que consegue colocar assuntos fortes como maternidade e carreira sem precisar de uma história de amor exagerada, todo o poder é dado a ela e bem, faz isso de forma fantástica.

Provavelmente a beleza de A Chegada esteja no fato de que ele é inesgotável de assuntos e possível de inúmeras análises. Apesar de Villeneuve ter uma identidade fílmica consistente, esse longa se relaciona muito bem com a filmografia de vários diretores, homenageando muitos deles em cenas que remetem desde 2001: Uma Odisseia no Espaço, Contatos Imediatos de Terceiro Grau e Alien. Outras ligações podem ser feitas como Terrence Malick ou mesmo Darren Aronofsky, principalmente no cuidado psicológico e metafísico dos personagens, conduzindo-os por grandes trajetórias pelo tempo e espaço procurando um sentido pessoal, mas que leva a um maior, ou como mesmo afirma Sagan, o grande prazer que é dividir o tempo e espaço com tantas camadas de identidades, línguas, seres e grãos de poeira tão importantes para a existência.

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