A Ilha do Milharal

12.11.2015 │ 18:28

12.11.2015 │ 18:28

Georgia é um país independente da Rússia desde o começo dos anos 90, porém mantém uma situação delicada em relação à Abecásia, uma república autônoma que fica ao norte do país. O Rio Inguri é o principal fornecedor de energia elétrica dessas regiões, além de manter o sustento de populações ribeirinhas que dependem ora dos peixes, ora da fertilidade que o rio traz para a terra. Em A Ilha do Milharal (2014), do diretor George Ovashvili, a natureza do rio e os conflitos contínuos da região são planos de fundo para uma história sobre os ciclos da vida.

A natureza que dá e toma é a protagonista de A Ilha do Milharal. Dependendo exclusivamente das cheias do rio Inguri, um idoso chega em um pedaço de terra ilhado e começa a construir a sua casa temporária por alguns meses. A região seria apenas uma natureza bucólica se não se escutasse as metralhadoras ao fundo. O conflito entre a Georgia e a Abecásia parece uma situação corriqueira aos habitantes da região, não há muito espanto e nem medo, eles independem disso. Em seguida, contrastando com a figura do homem velho, sua neta adolescente chega à pequena ilha. A vida de ambos está ligada pelo laço de sangue mas estão em extremidades diferentes, como se a ilha fosse uma linha cronológica e cada um estivesse de um lado.

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O silêncio entre o avô e a neta é preenchido com a cumplicidade que um tem com o outro. Construir, revolver a terra, plantar, colher e abandonar, os dois sabem que o ciclo das coisas se resume na sobrevivência e na tentativa de evoluir. Em um certo ponto o avô pergunta à neta se terminou as aulas e ela confirma, ele complementa dizendo espera estar vivo quando ela receber o diploma já que os pais dela morreram. É o único momento que sabemos um pouco dos personagens e talvez para onde irão depois. Percebe-se que o avô, ao final do seu ciclo espera que a neta possa ir além, talvez longe dos conflitos, seja a guerra ou a dificuldade de uma vida nômade e dependente do rio Inguri.

A Ilha do Milharal exige um olhar atento do espectador, quase uma fuga, uma renúncia ao que se vive fora da sala do cinema de uma grande cidade. O som do rio, a bucólica beleza do vento entre os cabelos da jovem ou o olhar plácido do idoso são quebrados pelas fardas armadas que circulam de barcos a motor pela região. É desagradável ver a natureza e a calmaria da vida dos protagonistas serem interrompidas pela guerra e a instabilidade de conflitos, estes que tratam apenas de coisas abstratas para essas pessoas que desconhecem as ideias de limite e fronteiras, já que dependem da mobilidade.

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Talvez seja a câmera de George Ovashvili, que nos coloca em olhar privilegiado de planos panorâmicos da natureza do Cáucaso ou apenas a delicadeza das expressões do velho e da jovem, mas A Ilha do Milharal vai além de uma narrativa cinematográfica, é uma poesia, um soneto sobre vidas tão distantes das nossas, mas que dialogam direto com nosso cotidiano. Sempre temos que nos mover conforme os períodos do caudaloso rio da vida e cada mudança é uma vida nova que recomeça.

Nota:

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