A Noite Sempre Chega

(2025) ‧ 1h48

Entre a urgência e o desgaste: O retrato incompleto de uma noite de desespero

Felipe Fornari

A luta pela sobrevivência em A Noite Sempre Chega é o motor que impulsiona a narrativa, mas também o que expõe suas maiores fragilidades. A premissa é potente: Lynette, interpretada por Vanessa Kirby, precisa juntar 25 mil dólares em um único dia para evitar que sua família perca a casa. A partir daí, o filme mergulha em uma sequência de encontros, negociações e riscos no submundo de Portland, mas nem sempre consegue manter a tensão ou a credibilidade de suas situações.

O longa se insere em uma tendência recente de produções que abordam o abismo social e econômico, algo que já vimos em títulos como Dois Dias, Uma Noite, mas com um olhar mais fragmentado. Aqui, o diretor Benjamin Caron aposta em uma mistura de drama social e thriller urbano. A intenção é clara: criar um retrato cru da precariedade contemporânea. O problema é que a execução oscila entre o realismo social e um encadeamento de eventos que parecem roteirizados demais para convencer.

Lynette é uma protagonista difícil de decifrar, e o roteiro, escrito por Sarah Conradt, acerta ao não tentar suavizá-la. Ela é impulsiva, confrontadora e pouco simpática, o que evita um retrato paternalista. Ainda assim, a narrativa acaba exagerando na carga de traumas e experiências negativas do passado, o que torna a personagem menos tridimensional e mais um somatório de desgraças. Isso contribui para um clima que, com o tempo, deixa de ser impactante e passa a ser apenas cansativo.

A estrutura do filme aposta em encontros episódicos: a amiga que lhe deve dinheiro (Julia Fox), um contato antigo com segredos (Michael Kelly), um traficante de drogas (Eli Roth), um colega ex-presidiário (Stephan James) e até um retorno inesperado ao trabalho sexual (Randall Park). Alguns desses momentos funcionam individualmente, mas como conjunto, geram uma sensação de repetição e artificialidade. A motivação inicial — a compra inexplicável de um carro pela mãe (Jennifer Jason Leigh) — é tão forçada que enfraquece a base dramática da história.

Visualmente, Caron consegue equilibrar cenas de uma energia frenética com passagens mais contidas, evitando o sensacionalismo que poderia transformar tudo em “pornografia da pobreza”. Ainda assim, a falta de desenvolvimento emocional mais profundo na parte final do longa deixa a sensação de que, apesar do ritmo inicial, a narrativa perde fôlego quando deveria atingir seu clímax emocional.

Kirby entrega uma atuação comprometida, trazendo intensidade e fisicalidade à personagem, mas não recebe material narrativo à altura para explorar nuances e camadas. O filme tenta equilibrar a urgência de um suspense com a densidade de um drama social, mas termina ficando no meio do caminho, sem ser plenamente satisfatório em nenhum dos dois aspectos.

No fim, A Noite Sempre Chega é um retrato sombrio e atual da desigualdade e do desespero, mas que, apesar das boas intenções, não consegue converter seu potencial em uma experiência cinematográfica marcante. É um filme que começa com força, mas se perde em sua própria estrutura, deixando mais um gosto de frustração do que de realização.

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