(Des)controle

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Quando o autocontrole falha sob o peso das exigências impostas às mulheres

O filme (Des)controle é um drama nacional de estrutura simples, mas que toca em temas sensíveis e socialmente silenciados. Dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm, o longa cumpre o que se propõe: lançar luz sobre o alcoolismo, em especial o feminino, e sobre dilemas que atravessam a vida das mulheres contemporâneas.

A narrativa acompanha Kátia Klein, interpretada com maestria por Carolina Dieckmann, uma escritora consagrada de literatura infantojuvenil que se vê em colapso. Kátia enfrenta a crise de seu casamento em meio à sobrecarga imposta pelo cuidado da família e à pressão pela entrega de um novo livro. Trata daquela velha expectativa social de que a mulher dê conta de tudo, que concilie trabalho, família, cuidado e, claro, mantendo a estabilidade emocional.

Em busca de alívio diante de tal pressão, após quinze anos sem beber (depois de problemas com a bebida), a personagem inicia um retorno aparentemente inofensivo ao consumo de álcool. Kátia acredita ser capaz de beber socialmente e vê no álcool um escape, tanto para a busca de inspiração para a escrita do novo livro, quanto para lidar com o cotidiano exaustivo – um espaço de liberdade, de fuga. Porém, a tentativa de controle não tem sucesso. A atuação de Carolina Dieckmann é, sem dúvida, um dos pontos altos do filme. A atriz transita entre os momentos de lucidez, de negação do vício e de embriaguez, compondo Kátia, a personagem sóbria, e Vânia, sua versão embriagada, revelando o conflito interno e os efeitos do alcoolismo sobre suas relações pessoais e profissionais, as tensões familiares e afetivas que atravessam esse momento de luta.

O interessante é que o filme retrata o alcoolismo como algo próximo, um vício socialmente aceito e altamente destrutivo. Os relatos dos Alcoólicos Anônimos são diretos e necessários. Mostram que o perigo mora ao lado e que ações aparentemente inofensivas com o álcool, como o consumo precoce, podem ter efeitos devastadores na vida de uma pessoa.

Outro mérito do filme está em articular o alcoolismo feminino à condição de sobrecarga do trabalho invisível de organização da vida cotidiana, conciliada ao trabalho, ainda majoritariamente atribuída às mulheres. O filme mostra como essa pressão constante por desempenho e as exigências de equilíbrio emocional e cuidado podem conduzir ao esgotamento e, em casos extremos, ao verdadeiro colapso. Assim, o (des)controle é retratado como resultado de uma estrutura social que exige demais e oferece pouco suporte, não como uma fraqueza individual. Ao tratar o alcoolismo feminino com seriedade e empatia, o filme o conecta às desigualdades de gênero e provoca a reflexão sobre os limites das tentativas de autocontrole em uma sociedade que normaliza o excesso de exigências e silencia o sofrimento das mulheres.

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