Correspondente Estrangeiro

(1940) ‧ 2h

O suspense às vésperas da guerra

Felipe Fornari

Depois da atmosfera gótica de Rebecca, a Mulher Inesquecível, Alfred Hitchcock mergulhou novamente no universo da espionagem com Correspondente Estrangeiro, seu segundo filme realizado em Hollywood e uma aventura muito mais próxima dos suspenses que marcaram sua fase britânica. Johnny Jones é um repórter policial americano enviado à Europa porque seu editor deseja alguém capaz de enxergar além dos comunicados diplomáticos sobre a iminência da guerra. Rebatizado profissionalmente como Huntley Haverstock, ele parte sem qualquer experiência internacional e rapidamente descobre que sua curiosidade jornalística o colocou no centro de uma conspiração envolvendo agentes secretos, assassinatos e informações capazes de influenciar o conflito que se aproxima.

Joel McCrea interpreta Jones como uma variação particularmente simpática do homem comum hitchcockiano. Ele não possui treinamento para enfrentar espiões e tampouco compreende inicialmente as dimensões daquilo que testemunha, mas reage ao perigo com persistência e certa ingenuidade tipicamente americana. Quando o diplomata holandês Van Meer é aparentemente assassinado diante de dezenas de pessoas em Amsterdã, Jones percebe detalhes que contradizem a versão oficial e decide investigar por conta própria. Como acontecia em 39 Degraus, a verdade parece absurda demais para ser aceita, obrigando o protagonista a continuar avançando enquanto praticamente ninguém acredita nele.

É nesse assassinato que Hitchcock realiza uma das sequências mais extraordinárias de Correspondente Estrangeiro. Em meio a uma multidão protegida por guarda-chuvas, um disparo transforma uma cerimônia pública em caos e inicia uma perseguição frenética pelas ruas. A imagem vista de cima, com centenas de guarda-chuvas se movimentando enquanto o criminoso tenta desaparecer entre eles, resume perfeitamente a habilidade do diretor para organizar visualmente o suspense. Pouco depois, a investigação leva a um moinho de vento cuja movimentação aparentemente impossível denuncia que algo está errado, transformando novamente um elemento banal da paisagem em mecanismo de ameaça.

A narrativa não demonstra grande preocupação com a plausibilidade, acumulando conspiradores, identidades falsas, sequestros, perseguições e tentativas de assassinato com entusiasmo quase inesgotável. Essa característica poderia tornar o conjunto excessivo, mas Hitchcock compreende que o prazer está justamente na velocidade com que uma situação conduz à seguinte. Uma conversa aparentemente segura pode terminar com alguém sendo empurrado de uma certa altura, enquanto uma investigação improvisada pode revelar uma organização internacional escondida atrás de respeitáveis instituições. O mundo apresentado pelo filme parece permanentemente instável porque ninguém é exatamente aquilo que aparenta ser.

Há ainda espaço para o romance entre Jones e Carol Fisher, embora ele seja naturalmente subordinado à espionagem. A relação se torna mais interessante porque o pai dela, Stephen Fisher, ocupa posição decisiva dentro da conspiração, colocando sentimentos pessoais e responsabilidades políticas em confronto. Essa dimensão oferece alguma complexidade moral a uma aventura que poderia simplesmente dividir seus personagens entre heróis e vilões. Albert Bassermann também se destaca como Van Meer, especialmente quando o diplomata deixa de ser apenas a peça procurada pelos diferentes lados e passa a representar fisicamente o custo humano da informação que todos desejam controlar.

O espetáculo atinge seu ponto máximo na sequência do avião sobre o Atlântico. Hitchcock transforma uma viagem aparentemente segura em desastre de enorme impacto visual e em imagens impressionantes para uma produção de 1940. Mais uma vez, o diretor demonstra como suas grandes cenas funcionam porque nunca dependem exclusivamente da escala: existe sempre uma preocupação em posicionar personagens dentro do acontecimento e fazer o espectador sentir sua vulnerabilidade. É essa combinação entre invenção técnica, clareza espacial e perigo imediato que faz as sequências de ação permanecerem tão eficientes décadas depois.

Correspondente Estrangeiro termina deixando para trás qualquer disfarce sobre suas preocupações políticas. Em uma Londres sob bombardeio, Jones transmite pelo rádio um apelo aos Estados Unidos enquanto explosões interrompem a cidade ao seu redor, fazendo do suspense uma advertência direta sobre uma guerra que já havia começado na Europa, mas na qual os americanos ainda não haviam entrado. O caráter propagandístico é evidente, porém não diminui a extraordinária eficiência de uma aventura que reúne muitas das obsessões de Hitchcock em escala internacional. Entre guarda-chuvas, moinhos, conspirações e aviões em queda, o diretor transforma a instabilidade política daquele momento histórico em entretenimento eletrizante e demonstra que sua mudança para Hollywood não havia diminuído em nada seu talento para colocar o espectador no centro do perigo.

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